Coluna do Jota Garcia

Opinião – Eleição 2026: quarenta anos de estrada e o retrato de um poder sem freios

  • Por Jota Garcia

Por mais de quatro décadas acompanho eleições. Algumas apenas observando, outras participando diretamente das engrenagens invisíveis das campanhas. Quem atravessa tanto tempo na política acumula histórias suficientes para encher uma coletânea inteira: brigas de militância nas ruas, enfrentamentos entre grupos rivais, greves no Distrito Industrial, servidores públicos mobilizados, sindicatos em ebulição, noites intermináveis em comitês improvisados.

A política brasileira sempre teve seus excessos, seus improvisos e seus personagens pitorescos. Mas raramente se viu algo como o que se apresenta no cenário atual.

A eleição de 2026, especialmente no Amazonas, escancara algo que vem sendo gestado há anos: a consolidação de um projeto de poder personalista, sustentado mais por narrativas políticas do que por resultados administrativos. Um modelo que mistura populismo, arrogância política e uma inquietante tolerância com o atropelo das instituições.

Ao longo da história recente, o Brasil criou uma liturgia democrática — imperfeita, é verdade — mas baseada em certos limites. Esses limites, hoje, parecem cada vez mais elásticos. A política nacional virou espetáculo permanente. O palco contaminou o debate público e estimulou figuras que transformam o exercício do poder em performance.

O fenômeno não é apenas nacional. Em Manaus, ele ganha contornos ainda mais preocupantes.

A capital do Amazonas atravessa um conjunto de gargalos estruturais que não são novos, mas que se agravaram de forma visível: mobilidade urbana em colapso, sistema de saúde pressionado, educação utilizada como ferramenta de articulação política e uma sensação crescente de ausência de comando administrativo.

O problema mais grave não é a existência das crises — cidades complexas sempre as terão. O problema é a ausência de responsabilidade política.

Não se vê secretários assumindo publicamente falhas de gestão. Não há explicações claras, metas revisadas ou autocrítica institucional. A administração parece funcionar em piloto automático, enquanto a propaganda política mantém o discurso de eficiência.

Na saúde, o cenário é particularmente delicado. O comando da pasta tornou-se tema recorrente de críticas dentro e fora do setor. Cooperativas médicas e estruturas de terceirização passaram a exercer influência decisiva sobre a engrenagem financeira do sistema. O resultado é conhecido: serviços pressionados, profissionais insatisfeitos e usuários cada vez mais vulneráveis.

Na mobilidade urbana, o retrato é quase didático. A autoridade responsável simplesmente desapareceu do debate público. Manaus vive um trânsito que mistura improviso, expansão urbana desordenada e ausência de planejamento.

Não há sinalização adequada em diversas vias. Rotatórias transformaram-se em pequenas arenas de conflito diário entre motoristas. A engenharia de tráfego parece operar sem estratégia clara.

O dado mais simbólico é outro: há mais de três décadas a cidade praticamente não amplia sua estrutura viária de forma proporcional ao crescimento populacional. O resultado são vias estranguladas, congestionamentos permanentes e perda de qualidade de vida.

Na educação, um fenômeno antigo volta a aparecer com força. Escolas e estruturas administrativas tornam-se ambientes de mobilização política indireta. Gestores e professores são “convidados” a participar de eventos eleitorais, uma prática que lembra métodos comuns nos anos 1980.

Nada disso acontece no subterrâneo da política. O curioso é que muitos desses movimentos ocorrem à luz do dia, enquanto os órgãos de fiscalização parecem olhar para outro lado.

É nesse ambiente que a eleição de 2026 se constrói.

Não se trata apenas de escolher um candidato ou um projeto administrativo. O que está em jogo é a forma como o poder público se relaciona com a democracia: se como instrumento de serviço coletivo ou como plataforma de consolidação pessoal.

Depois de quarenta anos observando campanhas, uma coisa fica clara: a política brasileira sempre muda quando a sociedade decide reagir. Antes disso, quase sempre ela apenas se acomoda.

Manaus, mais cedo ou mais tarde, terá que decidir qual desses caminhos pretende seguir.