
Lista divulgada pelo banco expõe 134 contratos firmados entre 2009 e 2014 para compra de aeronaves da Embraer com juros abaixo da Selic
Artistas, empresários, políticos e até nomes ligados à Lava Jato aproveitaram a linha de crédito do BNDES para financiar jatos particulares fabricados pela Embraer entre 2009 e 2014. A lista, divulgada pelo banco na última segunda-feira, 19, reúne 134 contratos e detalha valores, taxas de juros e prazos de pagamento.
A publicação ocorreu sob o argumento de ampliar a transparência sobre operações antigas da instituição. Além disso, a divulgação veio poucos dias depois de declarações do então presidente Jair Bolsonaro, que prometeu expor quem teria se beneficiado das políticas dos governos do PT para comprar aeronaves com financiamento subsidiado.
Doria e Huck aparecem entre os compradores
Entre os nomes mais conhecidos da lista estão o então governador de São Paulo, João Doria, e o apresentador Luciano Huck.

Doria financiou, em 2010, uma aeronave de R$ 44 milhões por meio da empresa Doria Administração de Bens. Segundo os dados, ele obteve juros de 4,5% ao ano e prazo de 120 meses para quitar o financiamento.
Já Luciano Huck comprou, também em 2010, um jato de R$ 17,7 milhões por meio da empresa Brisair. Nesse caso, o contrato previa juros de 3,3% ao ano e prazo de 119 meses para pagamento.
Michael Klein ficou com a aeronave mais cara
A aeronave mais cara financiada dentro desse programa foi adquirida pelo empresário Michael Klein, ligado às Casas Bahia.

Ele comprou um jato executivo de R$ 77,8 milhões em nome da empresa Cb Air Taxi Aereo Ltda.. O financiamento também foi fechado em 120 meses, com juros de 3,5% ao ano.
Família Moreira Salles também usou a linha de crédito
Outro nome de peso que aparece na lista é a família Moreira Salles, ligada ao Itaú-Unibanco.

Segundo o levantamento, a Brasil Warrant Administradora de Bens contratou um financiamento de R$ 75,5 milhões para adquirir uma aeronave, com taxa de 4,5% ao ano.
Lista inclui empresas investigadas na Lava Jato
A relação divulgada pelo BNDES também inclui empresas citadas em investigações da Lava Jato.
Entre elas estão:
- JBS, com financiamento de R$ 39,7 milhões;
- Estre Ambiental, com R$ 14,2 milhões.
Além disso, também aparecem nomes como o advogado Pedro H. Xavier, que defendeu o ex-diretor da Galvão Engenharia, Erton Medeiros, e o doleiro Carlos Habib Chater, delator da Lava Jato.
Justiça bloqueou pelo menos dois jatos
Pelo menos duas das aeronaves financiadas pelo BNDES acabaram bloqueadas pela Justiça.
A Operação Greenfield tornou indisponíveis os bens de Mario Celso Lopes e de suas empresas, entre elas a MCL Empreendimentos e Negócios. Segundo o texto-base, essas empresas tinham aeronaves financiadas junto ao banco nos valores de R$ 15 milhões e R$ 9 milhões.
Apoiadores de Bolsonaro também usaram o crédito barato
A lista também alcança empresários que criticaram governos petistas e depois apoiaram Jair Bolsonaro.

É o caso de Flávio Rocha, da Riachuelo, um dos líderes do movimento Brasil 200. Segundo os dados divulgados, ele obteve financiamento de R$ 55 milhões com juros de 3% ao ano para comprar um avião.
Ou seja, o benefício não ficou restrito a grupos políticos ou econômicos de um único campo ideológico.
Grandes empresas e artistas também aparecem
Além dos nomes mais conhecidos da política e do empresariado, a lista reúne empresas de setores variados.
Entre os beneficiados pela linha de crédito estão:
- Fiat Automóveis
- Lojas Americanas
- John Deere
- MRV Engenharia
Também aparecem produtoras de shows ligadas aos artistas Victor e Léo e Cláudia Leitte.
BNDES diz que programa queria fortalecer a Embraer
Em nota divulgada no site oficial, o BNDES explicou que a linha de crédito foi criada em 2009, dentro do Programa de Sustentação do Investimento (PSI).

Segundo o banco, a política cobrava juros inferiores à taxa Selic, variando de 2,5% ao ano a 8,7% ao ano. O objetivo era estimular as vendas da Embraer e aumentar a competitividade da fabricante brasileira diante da concorrência estrangeira.
Subsídio custou R$ 693 milhões ao Tesouro
Na mesma nota, o banco afirmou que o custo estimado para o Tesouro Nacional com o subsídio dessas operações foi de R$ 693 milhões em valores corrigidos.
Além disso, o BNDES informou que os financiamentos ocorreram por meio de operações indiretas automáticas. Nesse modelo, o banco repassa os recursos a instituições financeiras intermediárias, que ficam responsáveis pela análise de risco e pela contratação junto ao cliente final.
Lista escancara alcance de política de crédito subsidiado
Na prática, a divulgação da lista mostra que a política de crédito subsidiado para compra de jatos não atendeu apenas grandes grupos industriais ou empresas estratégicas.
Ao contrário, o programa alcançou figuras de alto poder econômico, nomes da política, celebridades da TV e até personagens ligados a investigações de corrupção e lavagem de dinheiro.
Com isso, o material divulgado pelo BNDES reacendeu o debate sobre o uso de dinheiro público barato para financiar bens de luxo em um período marcado por forte intervenção estatal na economia.
Leia mais 
- Exclusivo: Blog do Pávulo inicia série de entrevistas com pré-candidatos ao Governo do Amazonas
- Pesquisa Nexus/BTG mostra Lula na liderança e testa Joaquim Barbosa pela primeira vez na disputa presidencial
- Carreta invade contramão no Parque Dez e assusta motoristas em Manaus
- Justiça nega parcelamento e mantém cobrança contra Republicanos-AM e Silas Câmara
- Flávio Bolsonaro vai aos EUA em meio à crise do caso “Dark Horse” e tenta encontro com Trump
- Odebrecht e Daniel Vorcaro aparecem como sócios em seis empreendimentos imobiliários de luxo em São Paulo





