
Avanço das apostas online agrava o endividamento, consome renda da baixa renda e amplia a sensação de piora econômica no país
Os principais indicadores da economia brasileira mostram melhora. O desemprego caiu, a renda média avançou, a inflação perdeu força e o crescimento econômico voltou a ganhar tração. Mesmo assim, uma parcela expressiva da população continua com a sensação de que a vida piorou.
Segundo o Datafolha, em março de 2026, 46% dos brasileiros afirmavam perceber deterioração na situação econômica. Parte dessa contradição passa pelo peso das dívidas no orçamento doméstico. Agora, um novo fator amplia esse aperto: o avanço das apostas online, as bets.
Endividamento recorde atinge mais os pobres
Em março de 2026, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas. É o maior nível desde o início da série histórica da Confederação Nacional do Comércio, em 2010.

Ter dívida, por si só, não significa descontrole financeiro. Em ciclos de crescimento, o crédito costuma se expandir. O problema aparece quando a renda não acompanha o peso das parcelas.
É justamente aí que a desigualdade fica mais visível. Entre famílias com renda de até três salários mínimos, a inadimplência chega a 38,2%. Já entre aquelas com rendimento acima de dez salários mínimos, o índice cai para 14,7%. Em outras palavras, os mais pobres têm 2,6 vezes mais chance de não conseguir pagar suas dívidas.
Juros altos agravam o quadro
O Ipea calculou que o comprometimento médio da renda das famílias brasileiras com juros e amortizações chega a cerca de 20%. O número é mais que o dobro da média de 9,8% registrada em 17 países desenvolvidos.
Além disso, o orçamento básico segue pressionado. O Dieese estimou que o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 7.426, ou seja, 4,58 vezes o piso oficial de R$ 1.621.
Em São Paulo, por exemplo, a cesta básica consome sozinha 59% do salário mínimo líquido. Quando entram na conta aluguel, luz e transporte, o aperto fica ainda mais evidente.
Comida ficou mais cara que a inflação geral
O problema não está apenas na renda. Os alimentos também pesaram mais no bolso do trabalhador.
Entre janeiro de 2018 e março de 2026, o IPCA acumulou alta de 53%. No mesmo período, o grupo Alimentação e Bebidas subiu 57%. Para as famílias pobres, esse impacto é ainda maior, porque a alimentação representa cerca de 22% das despesas totais.
Na prática, isso significa que qualquer melhora pontual de renda acaba sendo absorvida por gastos antigos. O dinheiro novo entra, mas sai rápido para cobrir buracos já abertos.
Bets viraram novo dreno da renda popular
É nesse cenário que as apostas online ganharam escala.
As bets funcionam, cada vez mais, como uma espécie de imposto privado. Elas retiram uma parcela contínua da renda das famílias, sobretudo das mais pobres, sem oferecer contrapartida social equivalente.
Diferentemente de um tributo público, que pode financiar políticas coletivas, esse dinheiro vai direto para empresas privadas. Além disso, o sistema é desenhado para estimular apostas rápidas, repetidas e de alto risco.
Mercado movimenta cifras bilionárias
Em agosto de 2024, o Banco Central publicou o Estudo Especial nº 119 e dimensionou pela primeira vez o tamanho do mercado de apostas online no Brasil.
Os números impressionam. Ao longo de 2024, entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês foram enviados via Pix para 56 empresas de bets. No primeiro trimestre de 2025, esse valor chegou a R$ 30 bilhões mensais. No total, o mercado movimentou cerca de R$ 240 bilhões em 2024.
Em agosto daquele ano, 24 milhões de pessoas fizeram ao menos uma transferência Pix para plataformas de apostas.
Bolsa Família entrou na rota das apostas
Entre os apostadores, 5 milhões eram beneficiários do Bolsa Família. Juntos, eles transferiram R$ 3 bilhões para bets.
A mediana do gasto mensal desse grupo foi de R$ 100 por pessoa. Isso equivale a cerca de 15% do benefício médio. Além disso, 17% dos cadastrados no Bolsa Família apostaram no período.
Esse dado mostra que o problema já não está restrito ao entretenimento. Ele passou a afetar diretamente a renda de famílias em situação de maior vulnerabilidade.
Estudo diz que bets pesam mais que juros no endividamento
Um estudo do Ibevar e da FIA Business School, com base em dados do Banco Central e do Ipea entre 2011 e 2025, tentou medir o impacto específico das bets sobre o endividamento das famílias.

O resultado foi contundente. O coeficiente ligado às apostas online ficou em 0,2255, cerca de três vezes acima do coeficiente dos juros ao consumidor (0,0709) e cinco vezes acima do crédito (0,0440).
Na prática, isso significa que, no modelo analisado, as bets aparecem como o fator com maior peso associado ao crescimento do endividamento familiar — até acima dos juros.
Aposta desloca gasto com comida e lazer
Outro levantamento, da consultoria Strategy&, da PwC, mostrou a velocidade desse avanço entre as classes C, D e E.
Em 2018, as bets representavam 10% dos gastos com lazer e cultura desse grupo. Em 2024, já respondiam por 38%. Ao mesmo tempo, sua participação nos gastos com alimentação subiu de 1,5% para 4,4%.
Ou seja, as apostas passaram a substituir consumo essencial e lazer tradicional no orçamento popular.
Os mais pobres pagam proporcionalmente mais
Em valores absolutos, os mais ricos ainda apostam mais. A média mensal desse grupo chega a R$ 255. Já entre os mais pobres, a média fica em R$ 152.
Mas o peso relativo muda completamente a leitura. Para uma família de classe média alta, R$ 255 representam menos de 1,5% da renda. Já para um beneficiário do Bolsa Família, R$ 100 mensais consomem cerca de 15% do benefício médio.
A mesma aposta, portanto, tem impactos muito diferentes conforme a renda.
Países adotaram restrições duras
A experiência internacional mostra que vários países reagiram com regras mais severas.

No Reino Unido, o uso de cartão de crédito para apostas online foi proibido em 2020. Antes disso, em 2019, o valor máximo apostado nas máquinas FOBTs caiu de 100 libras para 2 libras, o que derrubou em 99% a receita bruta daquele segmento específico.
Na Espanha, o Decreto Real 958/2020 restringiu marketing, bônus, promoções e patrocínios. Já na Bélgica, a partir de 2023, entrou em vigor uma proibição ampla da publicidade de apostas.
Brasil regulou, mas ainda enfrenta lacunas
Desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas podem operar legalmente no Brasil, identificadas pelo domínio .bet.br.
Além disso, o governo federal passou a adotar medidas mais duras. Em março de 2025, uma portaria proibiu instituições financeiras de processarem transações com operadores não autorizados. Depois, em setembro de 2025, uma instrução normativa vetou a participação de beneficiários do Bolsa Família e do BPC nas plataformas reguladas.
Foi um avanço importante. Ainda assim, duas lacunas seguem abertas.
Mercado ilegal continua ativo
A primeira lacuna é o mercado ilegal, que segue operando em larga escala.
Embora a Anatel tenha bloqueado milhares de páginas desde 2024, operações ligadas a jogos como o “Tigrinho” mostram que redes paralelas continuam movimentando bilhões. Além disso, influenciadores digitais seguem impulsionando esse ecossistema.
Falta limite para o próprio formato dos jogos
A segunda falha está nas regras sobre o desenho dos jogos.
Modalidades como os slots permitem decisões em intervalos de poucos segundos. Isso acelera perdas e amplia o risco de dano financeiro. Apesar da regulamentação, o Brasil ainda não definiu limites claros para:
- velocidade máxima das rodadas
- valor máximo por aposta
- tempo máximo de sessão
A literatura internacional associa justamente esse formato rápido a maior risco de compulsão e prejuízo financeiro.
Só regular talvez não seja suficiente
Diante desse quadro, cresce a percepção de que a regulação, sozinha, pode não bastar.
As bets já pressionam o orçamento das famílias, agravam o endividamento e afetam o consumo essencial. Além disso, o problema avança sobre grupos mais vulneráveis, como trabalhadores de baixa renda e beneficiários de programas sociais.
Se, no passado, o país enfrentou redes de jogo físico com medidas mais firmes, a discussão agora é saber se chegou a hora de tratar as apostas online com o mesmo grau de seriedade.
Leia mais 
- Regularização do título de eleitor termina nesta quarta-feira (6); veja como fazer no Amazonas
- Opinião – Antes de Outubro: O Jogo de Poder que Define o Governo Cidade
- Renato Junior parabeniza Roberto Cidade, vai à posse e reforça diálogo entre Prefeitura e Estado
- Melqui Galvão segue preso em Manaus enquanto Justiça analisa transferência para SP
- TCE-AM passa a usar inteligência artificial no SEI e se torna pioneiro no Amazonas
- Profissionais da educação e da saúde protestam durante eleição indireta no Amazonas e cobram reajuste salarial





