Coluna do Jota Garcia

Centrão foge de Flávio e o caos está em curso

Por Jota Garcia

A construção de uma candidatura presidencial depende de muito mais do que popularidade entre a militância. No presidencialismo de coalizão brasileiro, alianças partidárias, tempo de televisão, estrutura nacional e capacidade de articulação política costumam ser fatores decisivos. É justamente nesse terreno que Flávio Bolsonaro enfrenta seu momento mais delicado.

Em fevereiro, aliados acreditavam que a pré-candidatura chegaria ao encerramento do primeiro semestre fortalecida, cercada por partidos do Centrão e com um vice definido para simbolizar amplitude política. O cenário evoluiu na direção oposta.

Às vésperas da convenção nacional que deverá oficializar sua candidatura, Flávio ainda não conseguiu apresentar uma chapa completa nem consolidar uma coligação robusta. O isolamento passou a ocupar o lugar da expectativa de crescimento.

O movimento do PP e do União Brasil de não aderirem ao projeto eleitoral do PL representa um sinal político importante. São legendas acostumadas a participar de governos e que normalmente avaliam as chances reais de vitória antes de firmarem compromissos eleitorais. A ausência dessas siglas reduz significativamente a capacidade de expansão da candidatura.

O Republicanos, embora mantenha diálogo com o campo conservador, também evita assumir protagonismo ao lado de Flávio. A postura cautelosa evidencia que o partido prefere preservar margem de negociação para o futuro, em vez de assumir riscos antecipados.

Na prática, o PL caminha para uma campanha cada vez mais solitária, dependente da força do bolsonarismo tradicional e da mobilização de sua base ideológica.

Além das dificuldades de articulação partidária, fatores externos passaram a ocupar espaço relevante no debate político. As consequências dos processos envolvendo Jair Bolsonaro, a atuação institucional do Supremo Tribunal Federal, os desdobramentos da reunião com embaixadores e episódios ligados ao empresário Daniel Vorcaro ampliam o ambiente de desgaste e alimentam a narrativa de instabilidade em torno do grupo político.

Enquanto isso, episódios regionais também produziram reflexos nacionais. No Ceará, Michelle Bolsonaro sofreu uma derrota política relevante e, ao mesmo tempo, acabou aprofundando divisões internas no campo da direita, dificultando a construção de um palanque unificado no estado.

Outro sinal considerado significativo foi a retirada da senadora Tereza Cristina da composição eleitoral pretendida por Flávio. Reconhecida pela capacidade de diálogo com o agronegócio e setores moderados da política, sua ausência representa a perda de um importante ativo político para ampliar a candidatura além do núcleo bolsonarista.

O comportamento do Centrão segue uma lógica conhecida: partidos desse bloco raramente permanecem em projetos que não demonstrem viabilidade eleitoral ou capacidade de formar maioria. Quando começam a se afastar antes mesmo da campanha oficial, transmitem ao mercado político uma mensagem de prudência e expectativa quanto à redefinição do cenário.

A eleição, entretanto, permanece aberta. Convenções, alianças de última hora e mudanças no ambiente político ainda podem alterar o quadro. Porém, o momento atual indica que Flávio Bolsonaro enfrenta seu maior desafio desde o lançamento de sua pré-candidatura: convencer aliados de que seu projeto possui viabilidade eleitoral suficiente para justificar investimentos políticos.

Mais do que uma dificuldade momentânea, o isolamento pode representar uma mudança estratégica do Centrão, que historicamente prefere caminhar ao lado de candidaturas capazes de reunir ampla sustentação institucional e perspectivas concretas de vitória. Se essa tendência permanecer, a campanha de Flávio poderá iniciar oficialmente sem a musculatura política imaginada por seus articuladores meses atrás, transformando uma expectativa de expansão em uma disputa marcada pelo voo solo e pela necessidade de reconstruir pontes que, até aqui, parecem cada vez mais distantes.