Coluna do Jota Garcia

Editorial – Carbono, silêncio e a velha política amazônica no Incra 

Por Jota Garcia

Em Brasília, onde escândalos costumam evaporar mais rápido que álcool em hospital público, surgiu um enredo que mistura créditos de carbono, influência política e uma tentativa um tanto constrangedora de amordaçar a imprensa.

O personagem central é um ex-senador do PT pelo Amazonas, daqueles que não chegaram ao cargo pelo voto direto das ruas, mas pela porta lateral do sistema político: a suplência. No Brasil, como se sabe, suplente de senador é uma espécie de “vice invisível” — ninguém sabe quem é, ninguém vota nele, mas de repente o cidadão acorda senador da República.

Foi exatamente assim que esse político ascendeu. Por um arranjo político típico da fauna de Brasília, tornou-se senador e, mais tarde, líder do governo no Senado. Uma ascensão meteórica para alguém que, segundo críticos e adversários, nunca teve carreira profissional tradicional fora da política.

O negócio do carbono

Agora o nome do ex-senador reaparece em um contexto bem menos glamouroso: um projeto de créditos de carbono no sul do Amazonas.

Documentos obtidos por reportagem indicam que um diretor do Incra pediu tramitação urgente para avaliar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) relacionado ao projeto. A área em questão seria terra pública, o que por si só já transforma qualquer iniciativa econômica ali em um campo minado jurídico.

Segundo fontes que acompanham o caso, o negócio teria articulações atribuídas à família Vorcaro e envolveria empresas ligadas ao Banco Master. Investigadores apontam suspeitas de que estruturas empresariais associadas ao projeto teriam sido infladas financeiramente no processo.

Nada disso, até agora, representa condenação. Mas o conjunto de indícios levantou sobrancelhas em Brasília e no Amazonas — e quando sobrancelha de investigador sobe, geralmente é porque algo cheira estranho.

A irritação com a imprensa

O ponto que transformou a história em crise política foi outro.

Reportagens que trouxeram à tona o projeto de carbono e suas conexões teriam provocado forte reação do ex-senador, acusado por interlocutores de tentar usar sua influência para pressionar e intimidar veículos de imprensa.

Se confirmadas, as tentativas revelariam um velho vício da política brasileira: o de acreditar que o problema não é o fato revelado, mas quem o revelou.

É a lógica do mensageiro culpado. Em vez de responder às perguntas, tenta-se calar quem pergunta.

O capítulo judicial

A novela ganhou ainda um capítulo curioso no Judiciário amazonense.

Nos bastidores do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), comenta-se que decisões relacionadas ao caso acabaram desautorizadas ou revertidas pelo Supremo Tribunal Federal. O episódio teria provocado constrangimento interno e desgaste institucional.

Magistrados costumam dizer, em voz baixa, que a pior coisa para um juiz não é perder uma decisão — isso faz parte do jogo. O problema é perder com barulho.

E, segundo relatos de bastidores, houve barulho suficiente para deixar a credibilidade de algumas decisões “raspando o rodapé”.

A Amazônia como negócio

No fundo, a história revela algo maior que um político específico.

A economia do carbono, que poderia ser uma ferramenta séria de preservação ambiental, virou também um território fértil para intermediários, consultorias nebulosas e estruturas financeiras criativas.

A floresta, que já foi explorada por madeira, ouro e grilagem, agora corre o risco de ser explorada também no mercado de certificados ambientais.

Trocam-se motosserras por contratos.

Mas a lógica do lucro rápido continua a mesma.

O silêncio que não veio

Se havia intenção de silenciar a imprensa, o efeito pode ter sido o oposto.

Em política, quanto mais alguém tenta esconder uma história, mais ela cresce. É uma lei quase física de Brasília — algo entre a gravidade e a fofoca parlamentar.

E, nesse caso, a tentativa de abafar o assunto acabou ampliando as perguntas:

Quem realmente controla o projeto de carbono?

Qual o papel das empresas associadas ao Banco Master?

Por que um processo no Incra recebeu urgência incomum?

E qual foi, de fato, a atuação do ex-senador nessa engrenagem?

Enquanto essas respostas não aparecem, a história continua pairando sobre Brasília como uma nuvem amazônica em dia de tempestade.

E nuvem de tempestade, na política brasileira, raramente se dissolve sozinha.