Coluna do Jota Garcia

Em vitória expressiva, esquerda derrota ultradireita e António José Seguro será o próximo presidente de Portugal

António José Seguro discursando no evento de encerramento de campanha em Porto antes do segundo turno presidencial - Rita Franca - 6.fev.2026/Reuters

Socialista moderado vence André Ventura com ampla vantagem e sinaliza desejo dos portugueses por estabilidade institucional

Lisboa – O candidato da esquerda António José Seguro venceu com ampla margem as eleições presidenciais deste domingo (8) e será o próximo presidente de Portugal. Quadro histórico do Partido Socialista, ele conquistou uma vitória considerada expressiva sobre a ultradireita.

Com 98,6% das urnas apuradas, Seguro somava 66,6% dos votos válidos, superando com folga André Ventura, do partido Chega, que obteve 33,4%. A diferença ultrapassou 30 pontos percentuais, consolidando uma das maiores vitórias presidenciais recentes no país.

A taxa de abstenção ficou entre 42% e 48%, patamar semelhante ao do primeiro turno, quando chegou a 47,7%. O dado indica estabilidade na participação eleitoral e ausência de desmobilização relevante do eleitorado.

Reconhecimento da derrota e discurso de conciliação

Ventura reconheceu a derrota poucos minutos após a divulgação das primeiras projeções. “Desejo que Seguro seja um bom presidente, porque os portugueses precisam”, afirmou. Em seguida, sinalizou que pretende liderar o campo da direita nos próximos anos.

António José Seguro é eleito novo presidente de Portugal. Na imagem, ele chega para acompanhar a apuração do segundo turno, na noite deste domingo (8), em Lisboa — Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP

Seguro, por sua vez, adotou um tom institucional e comedido. “Meu objetivo é servir ao meu país. O povo português é o melhor povo do mundo”, declarou, em mensagem breve antes do discurso oficial previsto para mais tarde.

Alguns municípios em estado de calamidade pública, afetados por chuvas intensas, votarão apenas na próxima semana. No entanto, essas localidades representam menos de 1% do eleitorado, o que não altera o resultado final.

Da fragmentação à convergência

A vitória de Seguro encerra um aparente paradoxo eleitoral. No primeiro turno, candidatos identificados com a esquerda somaram cerca de 35% dos votos, enquanto os nomes da direita ultrapassaram 50%. Ainda assim, o socialista venceu com folga no segundo turno.

A explicação está no perfil do eleitorado. Pesquisa da Universidade Católica Portuguesa, divulgada na semana anterior à votação, apontou que a disputa deixou de ser vista como um embate entre esquerda e direita. Para a maioria dos eleitores, tratava-se de uma escolha entre moderação e extremismo.

Nesse cenário, venceu o candidato que simbolizou previsibilidade. Seguro construiu sua campanha com base no discurso de estabilidade, inclusive no slogan “Futuro Seguro”, enquanto Ventura apostou em retórica de ruptura e confronto.

Apoio da direita moderada

Após o primeiro turno, Ventura tentou unificar o campo conservador em torno de seu nome. A estratégia fracassou. Nos dias seguintes, lideranças da direita moderada migraram para o campo de Seguro. Entre elas, destacou-se o ex-primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva, referência histórica do conservadorismo português.

André Ventura, candidato do partido de extrema direita de Portugal Chega — Foto: REUTERS/Rodrigo Antunes

Esse movimento ampliou a base eleitoral do socialista e reforçou sua imagem de candidato capaz de dialogar além das fronteiras partidárias.

Presidência como fator de estabilidade

Embora o presidente português não governe diretamente, o cargo tem peso decisivo em momentos de crise. Cabe ao chefe de Estado, por exemplo, a prerrogativa de dissolver o Parlamento.

Apoiantes do candidato presidencial e socialista moderado António José Seguro reagem aos resultados das sondagens no dia das eleições presidenciais — Foto: REUTERS/Pedro Nunes

Esse poder foi exercido de forma recorrente pelo atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, que dissolveu a Assembleia da República três vezes ao longo de seu mandato — duas por escândalos de corrupção e uma por paralisia política após a rejeição do Orçamento.

Especialistas avaliam que Seguro adotará postura oposta. “Ele é um político da esquerda que dialoga bem com a direita e só usaria esse instrumento em último caso”, afirma André Santos Pereira, professor de comunicação política do ISCTE e diretor-associado da consultoria Political Intelligence.

A expectativa é de convivência institucional estável entre Seguro e o primeiro-ministro Luís Montenegro, líder da Aliança Democrática, coligação de centro-direita que governa o país.

Experiência em tempos de crise

A postura conciliadora de Seguro remete a um episódio marcante de sua trajetória. No início da década passada, durante a crise do euro, Portugal enfrentou grave colapso financeiro e precisou recorrer a empréstimos internacionais, sob duras exigências fiscais.

António José Seguro, candidato do Partido Socialista de Portugal — Foto: REUTERS/Pedro Nunes

À época, o país era governado pelo centro-direita, enquanto Seguro liderava a oposição socialista. Mesmo pressionado por alas mais radicais de seu partido, ele optou por uma “oposição responsável”, garantindo governabilidade em troca de proteção mínima à classe trabalhadora.

A estratégia permitiu que Portugal fosse o primeiro país do sul da Europa a sair da crise, mas custou a liderança partidária de Seguro, que ficou afastado da política por quase dez anos. Questionado durante a campanha, ele afirmou não se arrepender da decisão.

Moderação como escolha política

Além do embate entre moderados e extremistas, a eleição expôs duas visões de país. Ventura sustentou o discurso de que Portugal estaria estagnado desde a redemocratização. Seguro respondeu com dados e símbolos históricos.

O socialista destacou a transformação do país desde a Revolução dos Cravos, lembrando avanços na modernização econômica, no turismo, na gastronomia, na tecnologia e na consolidação do Estado de bem-estar social — apesar dos desafios fiscais.

Dados recentes do Barômetro da Lusofonia reforçam essa leitura. Portugal lidera o ranking de apreço à democracia entre os países de língua portuguesa. Mesmo diante de crises na saúde e na habitação, a maioria dos portugueses segue apostando na democracia e na moderação como caminhos para superar os problemas.

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