Influenciador alemão de extrema-direita condenado se abriga no Brasil

Nikolai Nerling chegou ao país em novembro com visto de turista e vem fazendo vídeos com discurso de ódio no Sul; ele é alvo de inquéritos na Alemanha

Um famoso videoblogger da extrema-direita alemã está desde o início de novembro no Brasil, onde continua filmando e divulgando vídeos com discurso de ódio. Condenado na Alemanha pelo crime de negação do Holocausto, Nikolai Nerling é conhecido em seu país por um canal chamado Der Volkslehrer (O professor do povo).

“Nerling é um extremista da direita convicto com tudo o que isso implica. Ele dissemina antissemitismo, narrativas conspiratórias, nacionalismo e racismo”, diz Manja Kasten, do Conselho Móvel contra o Extremismo de Direita de Berlim, uma organização que aconselha vítimas de ataques neonazistas.

Nerling , de 41 anos, viajou para o Brasil como turista, mas fez do país seu lar temporário. Na Alemanha, vários inquéritos o aguardam, segundo confirmou ao GLOBO o Ministério Público de Berlim. O procurador-geral da capital, Stefan Steltner, não quis responder se a Interpol seria avisada de sua presença no Brasil ou se um pedido de extradição seria apresentado. Em conversa com O Globo, Nerling disse temer que seja preso caso volte para a Alemanha. Por isso, completou, quer “esperar e ver no Brasil como as coisas se desenvolvem” lá.

Bloqueado no YouTube

Uma condenação em particular poderia sair cara para o blogueiro: após negar publicamente o Holocausto no memorial do campo de concentração de Dachau, ele foi condenado em fevereiro de 2018. O recurso contra a sentença do Tribunal Regional de Munique, que estabeleceu multa de € 6 mil, foi indeferido, e a condenação tornou-se definitiva em dezembro de 2021. O próprio Nerling contou já ter arcado com custos de € 30 mil só nesse caso.

Nerling trabalhou como professor em uma escola primária em Berlim, mas foi demitido em 2018. Hoje, como blogueiro de vídeo, se tornou uma figura importante da extrema direita alemã, mantendo contato com grupos neonazistas violentos. No ano passado, em um vídeo, ele zombou das nove vítimas de um ataque terrorista cometido por um neonazista na cidade de Hanau em 2020. Ele também atuou como “repórter” em protestos organizados por negacionistas do coronavírus.

Como o YouTube bloqueou o canal de Nerling várias vezes, a maioria de seus vídeos foi transferida para a página privada dele e o BitChute, um canal popular para a extrema direita mundial. Nerling também distribui seus vídeos em um canal de Telegram onde tem mais de 33 mil assinantes. Ele financia seu trabalho com doações de seus seguidores.

Quando questionado, ele não quis dizer onde está morando no Brasil. Seus vídeos mostram que ele já visitou várias cidades, especialmente no Sul. Vestido com roupas tradicionais alemãs, esteve em colônias de descendentes de alemães, jantou em restaurantes com comida alemã e entrevistou pessoas. A seus entrevistados, Nerling diz querer aprender sobre a vida e a cultura de brasileiros de ascendência alemã.

A especialista Manja Kasten alerta: “Ele define cultura de maneira excludente. Os “Lederhosen” (calça de couro tradicional no Sul da Alemanha) podem parecer bonitos, mas neles há extremismo da direita, racismo e violência contra minorias”.

O ativista da ultradireita também fala de política com os entrevistados. Em um vídeo, por exemplo, ele lamenta um suposto “genocídio dos brancos”. Diz que os brasileiros de origem alemã não têm medo de falar com uma pessoa da direita porque são conservadores também.

Nilokai Nerling no vídeo postado pelo Dia em Memória às Vítimas do Holocausto, em que questiona a história do extermínio dos judeus
Reprodução

Nilokai Nerling no vídeo postado pelo Dia em Memória às Vítimas do Holocausto, em que questiona a história do extermínio dos judeus

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