Presidente critica retaliação comercial dos EUA, defende soberania nacional e promete proteger Pix e indústria brasileira
Em pronunciamento transmitido em rede nacional nesta quinta-feira (17), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou como “chantagem inaceitável” a sobretaxa de 50% imposta por Donald Trump a produtos brasileiros. Sem citar diretamente o presidente dos Estados Unidos, Lula condenou a medida, defendeu a soberania do Brasil e chamou de “traidores da pátria” os políticos nacionais que apoiam a retaliação.
A declaração ocorreu à noite, em um discurso de 4 minutos e 50 segundos na TV, mas fez parte de uma sequência de manifestações públicas do petista ao longo do dia, incluindo falas em Goiânia e Juazeiro (BA).
Críticas ao governo americano e recado às empresas estrangeiras
“O Brasil sempre esteve aberto ao diálogo. Realizamos mais de dez reuniões com o governo dos Estados Unidos e, em maio, apresentamos uma proposta de negociação. No lugar de uma resposta, recebemos ameaças e informações falsas sobre nosso comércio exterior”, afirmou Lula.
O presidente reforçou que todas as empresas — sejam nacionais ou internacionais — devem respeitar as leis brasileiras. “Tentativas de interferência na Justiça do país representam um grave atentado à soberania nacional”, completou.
Trump reage em defesa de Bolsonaro
Donald Trump anunciou a sobretaxa em 9 de julho e usou como justificativa, entre outros fatores, a forma como o Brasil tem tratado o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em sua rede social, o republicano qualificou como “vergonhoso” o julgamento de Bolsonaro, a quem chamou de “líder respeitado”.
Trump também enviou uma carta pessoal ao ex-presidente brasileiro, demonstrando apoio e afirmando que o processo contra ele é fruto de um sistema “injusto”.
‘Traidores da pátria’: Lula mira oposição interna
Durante o pronunciamento, Lula direcionou duras palavras a políticos brasileiros que, segundo ele, apoiam as medidas impostas por Washington. “Estão apostando no caos. Não se importam com o impacto na economia ou com os danos ao povo brasileiro”, declarou.
O alvo implícito foi Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, que vive nos EUA e tem feito apelos por sanções contra o Brasil. Após a sobretaxa ser anunciada, Eduardo chegou a divulgar uma carta pedindo uma “saída institucional” para o país.
Governo aposta no diálogo, mas prepara reação
Apesar das críticas, o governo brasileiro tenta resolver a crise por vias diplomáticas. O vice-presidente Geraldo Alckmin lidera as conversas com empresários e representantes do Congresso. A orientação é evitar retaliações imediatas, como a criação de tarifas recíprocas, embora a taxação de empresas de tecnologia americanas já esteja em debate.
Segundo Lula, a estratégia inclui escuta ativa com setores produtivos e sindicais. “Estamos organizando uma resposta conjunta da indústria, do agronegócio, do comércio e dos trabalhadores”, disse o presidente.
Pix, big techs e lobby: novo foco do embate comercial
Outro ponto central da disputa é o Pix. O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos foi citado na investigação comercial aberta pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA). Para o governo norte-americano, o Pix poderia configurar uma vantagem competitiva desleal.
Lula foi enfático: “O Pix é uma inovação brasileira e será protegido. Não vamos permitir intromissões externas sobre algo que funciona e favorece o povo.”
Nos bastidores, aliados do presidente veem atuação de lobbies de empresas de cartão de crédito e big techs por trás da ofensiva americana. “Vamos criar o Pix parcelado. É do Brasil e está incomodando”, provocou Lula durante agenda na Bahia.
Indústria em alerta: setores temem colapso nas exportações
A sobretaxa de 50%, prevista para entrar em vigor em 1º de agosto, ameaça diretamente setores estratégicos da economia brasileira. Calçados, móveis, ferro gusa, autopeças e máquinas são alguns dos segmentos que enfrentam riscos de inviabilização comercial, segundo entidades empresariais.
Além disso, Trump acusa o Brasil de manter práticas injustas e barreiras comerciais, embora os EUA mantenham superávit comercial com o Brasil há 17 anos. Em rede nacional, Lula rebateu: “As alegações são falsas. Só em 2023, os Estados Unidos tiveram superávit de US$ 410 bilhões com o Brasil.”
Investigação comercial amplia tensão
Paralelamente à sobretaxa, os EUA abriram uma investigação comercial contra o Brasil. O documento cita áreas como desmatamento, importações, comércio eletrônico e proteção da propriedade intelectual. A tradicional rua 25 de Março, em São Paulo, aparece como exemplo negativo nesse contexto.
Em resposta, o governo brasileiro já iniciou uma ofensiva diplomática para rebater as acusações e sustentar o Pix como modelo de sucesso. Em relação à pauta ambiental, Lula reiterou: “Somos referência mundial. Reduzimos em 50% o desmatamento da Amazônia e vamos zerá-lo até 2030.”
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