Por Jota Garcia
A Câmara Municipal de Manaus, outrora chamada de Casa do Povo, transformou-se em palco de um espetáculo grotesco de vaidades, interesses particulares e moralidade corrompida. A atual legislatura (2025/2026) marca talvez o ponto mais baixo da degradação política manauara.
Recentemente, um vereador — amparado pelo manto da prerrogativa de fiscalizar o Executivo — decidiu transformar um ato institucional em um show de autopromoção digital. Câmeras ligadas, transmissão ao vivo nas redes sociais, indignação performática e frases de efeito substituíram o trabalho sério e discreto que se espera de um parlamentar comprometido com o interesse público. O episódio, ocorrido durante uma “fiscalização” em obra pública no Parque da Criança, revelou o que há de mais repugnante na nova política: a busca incessante por likes e relevância virtual, tendo como meta não o bem coletivo, mas a eleição de 2026.
Do outro lado, um vereador aliado do poder executivo respondeu com virulência e impropérios pessoais, num espetáculo igualmente degradante. O debate público cedeu lugar à troca de insultos, à bajulação descarada e ao teatro político. Em vez de divergência de ideias, assistimos à disputa de quem grita mais alto — e quem agrada melhor o chefe de plantão.
Enquanto isso, a Câmara afunda num lamaçal que parece não ter fundo. Corrupção, rachadinhas, uso abusivo do “cotão” parlamentar, emendas suspeitas e direcionamentos de verbas públicas para projetos duvidosos — inclusive para entidades ligadas a familiares de parlamentares. O colapso ético é total, e o senso de decoro, uma lembrança distante.
O povo manauara assiste, incrédulo, à transformação do parlamento municipal em um circo onde a responsabilidade foi substituída pela encenação. O mandato, que deveria ser instrumento de fiscalização e representação, converteu-se em moeda de troca eleitoral.
E o mais irônico: até mesmo parte da oposição, que posa de moralista nas redes, foi — até pouco tempo atrás — submissa a antigos prefeitos de Manaus. Mudaram os donos do poder, mas o servilismo permanece.
A decomposição política e moral da Câmara Municipal de Manaus não é um fato isolado; é o retrato ampliado de um sistema que perdeu o pudor e o propósito. O parlamento, que deveria ser o espaço do debate e da defesa do cidadão, tornou-se o covil da autopromoção, do fisiologismo e do silêncio cúmplice.
Manaus merecia mais.






