Por Jota Garcia
Manaus vive aquele momento clássico da política amazônica em que as pesquisas eleitorais deixam de medir tendências para cumprir outra função: produzir atmosferas. Há levantamentos que parecem menos interessados em retratar o eleitor e mais empenhados em organizar o humor do poder.
No mais recente capítulo do circo pré-eleitoral, um candidato ao governo aparece em posição de destaque sem sequer ter confirmado oficialmente disposição para entrar no tabuleiro. No Amazonas, isso pouco importa. Em certos ambientes palacianos, a candidatura nasce antes da vontade do candidato. Primeiro vêm os números, depois as pressões, por último a política.
Enquanto isso, a máquina estadual atravessa um daqueles períodos em que a administração pública passa a funcionar segundo critérios litúrgicos. Pagamentos represados, fornecedores inquietos e prefeitos farejando dificuldades financeiras. Nos corredores do poder, espalha-se a velha sensação de que a liberação de recursos depende menos da burocracia e mais da capacidade de rezar novenas partidárias completas diante dos sacerdotes do orçamento.
A figura central do governo, cercada por operadores de sobrevivência política, enfrenta um problema antigo: administrar aliados que já começaram a discutir o futuro sem ele. Em Brasília chamariam isso de rearrumação de forças. Em Manaus, basta dizer que o banzeiro virou correnteza.
No núcleo de segurança pública, a turbulência ganhou contornos mais dramáticos. Um deputado estadual elevou o tom contra a cúpula da Polícia Civil, enquanto setores da Assembleia passaram a explorar publicamente o desgaste institucional. Duas parlamentares tentam conter o avanço do conflito, conscientes de que crises na segurança raramente terminam restritas aos quartéis e gabinetes. Quando a autoridade entra em combustão política, ninguém consegue calcular onde cairão as cinzas.
O governo reage como governos acuados costumam reagir: anunciando operações de impacto, programas emergenciais e promessas de endurecimento. A mais recente delas envolve o BOPE, apresentado como vitrine de eficiência e força. O anúncio veio embalado com estética de tropa de elite e linguagem de campanha. Ficou faltando apenas um detalhe elementar: a explicação sobre origem dos recursos, sustentabilidade operacional e planejamento de longo prazo. No Amazonas, às vezes o marketing chega antes do orçamento.
A oposição observa. Nem toda ela deseja derrubar o governo imediatamente; parte prefere prolongar o desgaste até o calendário eleitoral amadurecer. Há grupos especializados em sangria lenta. Sabem que crises contínuas corroem mais do que escândalos explosivos.
Nesse ambiente florescem também as chamadas “pesquisas alfaiates” — levantamentos moldados sob medida para estimular candidaturas, intimidar adversários e fabricar sensação de inevitabilidade. O Tribunal Regional Eleitoral acompanha em silêncio burocrático, enquanto marqueteiros e operadores digitais transformam percentuais em instrumentos psicológicos.
O fenômeno não é novo. A política amazonense sempre cultivou uma relação tropical com estatísticas eleitorais. Pesquisa por aqui muitas vezes funciona como profecia autorrealizável: não mede o poder; tenta produzi-lo.
No fundo, o drama do atual ciclo político talvez seja mais simples do que aparenta. O governo entrou naquela fase em que precisa administrar simultaneamente três medos: o medo da máquina parar, o medo dos aliados escaparem e o medo de descobrir que o eleitor já começou a procurar outra história.
Em Manaus, quando isso acontece, o silêncio dos corredores costuma ser mais revelador que qualquer discurso oficial.






