A CPI das Apostas Esportivas, que prometia expor os bastidores da explosão dos jogos de azar digitais no Brasil, terminou de forma melancólica. O relatório final foi rejeitado pelos senadores, sem qualquer encaminhamento de indiciamentos às autoridades — um desfecho frustrante diante da gravidade do tema. Pela primeira vez em uma década, o Senado arquiva uma comissão parlamentar de inquérito sem qualquer consequência prática.
O relatório previa o indiciamento de 16 pessoas, entre elas as influenciadoras Virginia Fonseca e Deolane Bezerra. No entanto, após semanas de sessões recheadas de polêmicas e espetáculos midiáticos, como o depoimento de Virginia — ex-nora do cantor Leonardo —, os parlamentares optaram por enterrar o processo. Sem relatório aprovado, não há encaminhamento legal. Sem encaminhamento, não há responsabilização.
Apostas online: bilionário e sem freios
O fracasso da CPI contrasta com o crescimento alarmante das apostas esportivas no Brasil, que já movimentam cifras bilionárias. Dados do Banco Central, atualizados em abril pelo presidente interino Gabriel Galípolo, revelam que os brasileiros chegaram a apostar até R$ 30 bilhões por mês no primeiro trimestre de 2025. Desse montante, R$ 3 bilhões via Pix partiram diretamente de beneficiários do Bolsa Família, segundo levantamento anterior.

Apesar da dimensão do problema, o Senado optou por encerrar a comissão de forma apática. A CPI, criada em novembro de 2024, tinha como objetivo investigar o impacto das apostas online no orçamento das famílias, além de possíveis conexões com organizações criminosas e lavagem de dinheiro.
Contudo, com o avançar das investigações, parlamentares mais comprometidos abandonaram os trabalhos. Suspeitas de extorsão, tráfico de influência, e o envolvimento de artistas, influenciadores e políticos minaram a credibilidade da comissão. No fim, a CPI virou palco de autopromoção e não entregou respostas à sociedade.
Fiasco repetido: caso Americanas também naufragou
A apatia institucional não é inédita. O mesmo enredo se repetiu na CPI da Câmara que investigava o escândalo contábil da Americanas, estimado em R$ 20 bilhões. A comissão murchou, perdeu relevância e terminou com um relatório inócuo — deixando o grosso da apuração nas mãos da Polícia Federal, que pode atingir inclusive parlamentares.
Propostas do governo não bastam para conter rombo
Na tentativa de conter o impacto fiscal, o governo federal propôs recentemente o aumento da tributação sobre as apostas esportivas online, com apoio de líderes partidários. A medida, embora necessária, é paliativa. Falta fiscalização, regulação eficiente e um debate sério sobre o impacto social da prática.
Hoje, é difícil encontrar um brasileiro que não conheça alguém endividado, viciado ou afetado diretamente pelas “bets”. Enquanto isso, o Senado se cala — e a sociedade paga a conta.






