Coluna do Jota Garcia

Entre datas simbólicas e contratos milionários, Câmara de Manaus se distancia da cidade real

Imagem: Reprodução/Blog do Pávulo

Enquanto ruas seguem esburacadas e a infraestrutura afunda, vereadores aprovam homenagem à estética automotiva e mantêm foco em prioridades cada vez mais desconectadas da vida do manauara

A Câmara Municipal de Manaus (CMM) parece cada vez mais confortável em viver numa cidade paralela. De um lado, a Casa oficializa um contrato de quase R$ 3 milhões para a estrutura da Rádio Câmara Manaus. De outro, aprova por unanimidade um projeto que cria o “Dia do Profissional de Estética Automotiva” no calendário oficial da capital. Tudo isso enquanto Manaus segue atolada em velhos problemas, como ruas esburacadas, mobilidade precária, drenagem deficiente e serviços urbanos que não acompanham o tamanho da crise cotidiana.

A nova proposta, de autoria do vereador Raiff Matos (PL), institui o dia 2 de abril como data oficial de homenagem aos chamados detailers, profissionais que atuam com estética e conservação automotiva. O texto passou por unanimidade nesta segunda-feira, 18, e agora segue para a 3ª Comissão de Finanças, Economia e Orçamento (CFEO).

Isoladamente, reconhecer uma categoria profissional não é o problema. O ponto é outro. O problema está no retrato político que essa decisão ajuda a formar: uma Câmara que dedica energia, tempo e estrutura a pautas simbólicas, enquanto a cidade real cobra respostas duras, urgentes e concretas.

A cidade afunda, mas o calendário oficial segue em expansão

Manaus não enfrenta falta de datas comemorativas. Enfrenta falta de prioridade.

Enquanto o cidadão desvia de crateras, perde tempo no trânsito, enfrenta bairros abandonados e convive com obras lentas ou inacabadas, o Legislativo municipal encontra tempo para ampliar o calendário de homenagens. Além disso, faz isso num momento em que a própria atuação da Câmara já está sob questionamento por causa do custo da máquina e do foco político de seus gastos.

Foto: Jerônimo Garlott

Não faz muito tempo, a mesma Câmara firmou um contrato de R$ 2,775 milhões para a locação da estrutura da Rádio Câmara Manaus, com custo mensal estimado em R$ 231,2 mil. Ou seja, de um lado, há dinheiro e agilidade para bancar estrutura institucional robusta. De outro, sobra disposição para votar datas comemorativas enquanto a cidade continua esperando respostas proporcionais à gravidade dos seus problemas.

A combinação passa um recado ruim: quando se observa o que entra na pauta e o que recebe impulso político, fica a impressão de que o cotidiano do manauara vale menos do que a vitrine institucional da própria Câmara.

O simbolismo cresce quando a cidade pede ação

O projeto de Raiff Matos autoriza a realização de palestras, seminários, exposições e ações educativas voltadas à valorização dos profissionais da estética automotiva. O texto ainda prevê que as despesas saiam de dotações orçamentárias próprias, com possibilidade de suplementação, se necessário.

Aí surge a pergunta que incomoda: é disso que Manaus precisa agora?

A capital amazonense vive uma rotina de desgaste urbano evidente. Basta circular pela cidade para perceber que a distância entre o discurso institucional e a vida prática aumentou. Mesmo assim, a produção legislativa continua, em muitos momentos, voltada a temas de baixo impacto coletivo, enquanto demandas estruturais seguem empurradas para o discurso, para a promessa ou para a propaganda.

Nesse contexto, o projeto deixa de ser apenas uma homenagem setorial. Ele vira símbolo de uma lógica política que prefere o gesto fácil ao enfrentamento difícil.

O detalhe do carro parece importar mais que a rua destruída

Na justificativa, Raiff Matos argumenta que os profissionais da estética automotiva movimentam a economia local, geram renda e fortalecem o empreendedorismo. O raciocínio, em tese, não é absurdo. No entanto, a aprovação dessa proposta, dentro do cenário atual de Manaus, produz um contraste inevitável.

Afinal, a Câmara parece mais disposta a reconhecer quem cuida do brilho dos veículos do que a pressionar de forma efetiva por soluções para as ruas onde esses mesmos veículos atolam, quebram ou desviam de buracos todos os dias.

O paralelo é quase irônico. Em uma cidade onde falta asfalto de qualidade, sobra sensibilidade institucional para celebrar o polimento da lataria.

A unanimidade também diz muito

Outro detalhe chama atenção: o projeto passou por unanimidade.

Isso mostra que não se trata de iniciativa isolada ou excentricidade de um único vereador. Ao contrário, a aprovação unânime revela um ambiente político em que esse tipo de prioridade não encontra resistência significativa dentro da Casa.

E é justamente aí que o problema se amplia. Quando tudo vira consenso, inclusive o que parece periférico diante da crise urbana, o Legislativo deixa de funcionar como espaço de tensão produtiva sobre as urgências da cidade e passa a operar como uma engrenagem autorreferente, mais preocupada com agendas leves, nichadas ou midiáticas do que com enfrentamentos reais.

Entre a rádio milionária e a pauta ornamental

O problema não está apenas no projeto do “Dia do Profissional de Estética Automotiva”. O problema está no conjunto.

Quando a Câmara aparece no noticiário por um contrato milionário para sua rádio institucional e, logo depois, por aprovar mais uma data comemorativa, o que se consolida é uma imagem de desconexão. A população olha para isso e enxerga um Legislativo que fala para si mesmo, investe em si mesmo e, com frequência, legisla longe demais da rua.

Presidente da Câmara Municipal de Manaus, David Reis assinou aditivo que prorrogou contrato de locação de veículos leves por mais 12 meses, com custo mensal de R$ 111.500,00 Arte: Blog do Pávulo

No fim, o contraste é inevitável: quase R$ 3 milhões para a estrutura da Rádio Câmara, datas simbólicas em série no calendário oficial e uma cidade ainda esperando o básico.

Manaus não precisa de uma Câmara que apenas se mova. Precisa de uma Câmara que saiba distinguir o acessório do essencial.

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