Amazonas – A matemática política no Amazonas tenta, mais uma vez, desafiar a memória da população. Nesta terça-feira (2/6), o atual governador Roberto Cidade anunciou uma força-tarefa para reorganizar a saúde pública. Como destaque, ele citou o pagamento de R$ 100 milhões em valores atrasados a médicos e Organizações Sociais (OSs).
No entanto, o discurso de gestor que “arruma a casa” em pouco mais de 50 dias no Executivo esbarra em um ponto central: a crise que ele agora tenta resolver também cresceu sob sua própria inércia.
Discurso entra em choque com passado recente
Durante a fala, Roberto Cidade adotou o tom de quem recebeu uma herança problemática. Ele afirmou que a saúde é a pasta mais sensível e declarou que jamais gostaria de estar na posição de dever profissionais da área.
Ainda assim, essa narrativa entra em contradição direta com sua atuação anterior.
Antes de assumir o governo em mandato tampão, Cidade presidia a Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM). Ou seja, ele não acompanhava a crise à distância. Pelo contrário, ele ocupava uma posição central de fiscalização.
Poder de fiscalização não foi exercido
Como presidente da ALEAM, Cidade tinha obrigação constitucional de agir. Cabia a ele:
- fiscalizar a gestão estadual
- convocar responsáveis pela saúde
- cobrar transparência nos repasses
- agir para evitar o acúmulo de dívidas
Entretanto, a atuação não ocorreu na prática. Em vez de funcionar como mecanismo de controle, a Assembleia, sob sua presidência, manteve silêncio institucional diante do agravamento da crise.
Enquanto isso, a situação da saúde pública se deteriorava. As filas aumentavam, os serviços enfrentavam dificuldades e os salários dos profissionais passaram a atrasar de forma recorrente.
Pagamento expõe falha anterior
Os R$ 100 milhões pagos agora não representam um gesto de generosidade do Estado. Na prática, o valor evidencia o acúmulo de meses de atrasos.
Além disso, a liberação do montante reforça um ponto sensível: o recurso existia. O que faltou, naquele momento, foi ação política e fiscalização efetiva para impedir que a dívida crescesse.
“Palanque na UTI” e mudança de postura
Com a mudança de posição — agora no comando do Executivo —, a prioridade sobre a saúde também mudou.
Hoje, o governo envia secretário para visitas presenciais, realiza reuniões emergenciais e tenta acelerar soluções. Essas medidas são necessárias. No entanto, a população já cobrava essas ações muito antes da troca de comando.
Além disso, o contexto político pesa. Com a proximidade do calendário eleitoral, resolver uma crise acumulada passa a ter também impacto de imagem.
Memória política segue em jogo
O cidadão amazonense não ignora os fatos recentes. A tentativa de construir a imagem de gestor que resgata a saúde pública pode funcionar como narrativa política. Ainda assim, ela não apaga o histórico anterior.
A conta de R$ 100 milhões foi paga. Porém, a responsabilidade política pelo acúmulo da crise permanece evidente.
No fim, o cenário revela uma contradição clara: a saúde do Amazonas só ganhou prioridade absoluta quando a caneta do Executivo mudou de mãos.
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