Ataque conjunto de EUA e Israel eleva tensão global e reabre debate sobre mudança de regime no Irã
Os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que resultaram na morte do líder supremo Ali Khamenei, provocaram forte reação de analistas internacionais. Para especialistas ouvidos pela imprensa, a ofensiva representa um duro golpe ao direito internacional e ao multilateralismo, além de reabrir o debate sobre a política histórica de mudança de regime defendida por setores de Washington.
O conflito entrou no segundo dia neste domingo (1º). Além disso, a repercussão internacional cresceu à medida que lideranças políticas e acadêmicos passaram a avaliar os impactos geopolíticos da operação.
“Revés ao eixo multipolar”, afirma analista
Para Mohammed Nadir, do Observatório de Política Externa do Brasil (Opeb), a ofensiva representa um enfraquecimento do chamado eixo multipolar.
“Em termos de geopolítica internacional, creio que é um revés ao eixo multipolar anti-americano liderado por China, Rússia e Irã, além de Venezuela, Cuba e Coreia do Norte”, afirmou ao Blog.
Na mesma linha, o professor, economista e escritor Elias Jabbour classificou os ataques como a consolidação de uma “ditadura militar global por parte dos Estados Unidos”.
“Eles mostram ao mundo que são o único país capaz de intervir em todos os lugares”, avaliou.
Segundo Jabbour, a ofensiva também busca pressionar o Brics e atingir a iniciativa Cinturão e Rota — conhecida como Nova Rota da Seda — liderada pela China. “Ao atacar o Irã e tentar desmoralizar seu governo, tentam implodir a Cinturão e Rota a partir de uma das regiões mais estratégicas para o projeto”, afirmou.
Acusações de violação da Carta da ONU
O analista Julian Borger, do jornal britânico The Guardian, argumentou que o presidente dos Estados Unidos viola a Carta da ONU poucos dias após assumir o chamado Conselho de Paz.
Segundo ele, a operação ocorreu sem fundamento legal e em meio a esforços diplomáticos para evitar o conflito. “Foi uma tentativa não provocada de mudança de regime, lançada com consulta mínima ao Congresso ou ao público americano”, escreveu.
O Conselho de Paz havia sido apresentado ao Conselho de Segurança da ONU como um caminho para encerrar o massacre em Gaza. Entretanto, Borger avaliou que a proposta funcionou como uma manobra política.
“A ONU pensou estar comprando uma coisa, mas recebeu algo diferente: um órgão rival ao Conselho de Segurança sob direção de Donald Trump”, analisou.
O correspondente em Washington, Robert Tait, destacou que a derrubada do governo iraniano constitui um objetivo antigo da Casa Branca desde a Revolução Islâmica de 1979, que culminou na crise dos reféns na embaixada americana em Teerã.
“A tomada da embaixada trouxe aos Estados Unidos uma humilhação comparável à derrota no Vietnã”, afirmou Tait.
O que muda no Irã sem Khamenei?
Especialistas também analisam os impactos internos no Irã após a morte de Khamenei. O analista Mohammed Mansour afirmou à Al Jazeera que o assassinato representa um dos golpes mais significativos à liderança iraniana desde 1979.
Ele alertou que a eliminação da cúpula pode não produzir o efeito desejado pelo Ocidente. “Em vez disso, pode gerar um Estado mais paranoico e militarizado, focado exclusivamente na própria sobrevivência”, avaliou.
Mohammed Nadir concorda que a morte do líder supremo representa um duro golpe à elite clerical. Contudo, ele avalia que o cenário ainda permanece indefinido.
“É possível que surjam negociações para mudar o regime sem alterar profundamente o Estado iraniano, mas com concessões, como a neutralização do projeto nuclear, restrições ao sistema de mísseis balísticos e o fim do apoio ao chamado eixo de resistência no Oriente Médio”, afirmou.
Além disso, Nadir considera que pode emergir uma ala reformadora no país. Segundo ele, esse grupo poderia defender o alinhamento aos Estados Unidos, desde que o Irã mantenha apenas um programa nuclear civil sob supervisão internacional.
Sobrevivência do regime é prioridade
A analista Lyse Doucet, da BBC, afirmou que os clérigos e comandantes iranianos já se preparavam para esse cenário. Ela lembrou que, em ataques anteriores ocorridos em junho de 2025, Israel assassinou nove cientistas nucleares e diversos chefes de segurança, além de pelo menos 30 comandantes importantes.
“Independentemente de quem emerja no comando, o objetivo primordial permanecerá o mesmo: a sobrevivência da ordem que mantém o clero e as forças de segurança no poder”, afirmou Doucet.
Enquanto isso, o cenário internacional permanece sob forte tensão. A escalada reacende discussões sobre soberania, legalidade internacional e o futuro do equilíbrio de forças no Oriente Médio.
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