Coluna do Jota Garcia

MP desativa antigo presídio da PM em Manaus após operação expor regalias, álcool, internet e falhas graves de controle

Mais de 70 policiais militares presos foram transferidos em Manaus após desativação de unidade prisional na Zona Norte — Foto: Michel Castro/Rede Amazônica

Transferência de 70 policiais militares para nova unidade na BR-174 ocorreu após fuga em massa, denúncias de privilégios e perda de controle interno no Núcleo Prisional do Monte das Oliveiras

O antigo Núcleo Prisional da Polícia Militar do Amazonas, no bairro Monte das Oliveiras, na Zona Norte de Manaus, foi desativado nesta terça-feira, 12 de maio, após a deflagração da Operação Sentinela Maior, conduzida pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM).

A operação transferiu cerca de 70 policiais militares presos para a nova Unidade Prisional da Polícia Militar do Amazonas (UPPM/AM), na BR-174. A mudança ocorreu depois de uma sequência de fatos graves, entre eles a fuga de detentos, falhas estruturais e a descoberta de um ambiente marcado por privilégios incompatíveis com o cumprimento de pena.

Imagem: Divulgação
Imagens mostram estrutura com conforto e itens proibidos

Registros feitos no interior da antiga unidade mostram um cenário muito diferente do padrão esperado para custódia prisional.

Segundo o material obtido, os presos mantinham acesso a itens e facilidades como:

  • televisão de tela plana
  • roteador de Wi-Fi instalado e em funcionamento
  • fita de LED azul iluminando o ambiente
  • geladeiras e freezers abastecidos com carnes, ovos, manteiga e frutas
  • pizzas trazidas de fora
  • ar-condicionado split
  • frigobar
  • perfumes importados
  • ferramenta elétrica do tipo parafusadeira/furadeira a bateria
  • caixa lacrada de smartphone, aparentemente um iPhone
  • até um gato circulando livremente na área de cozinha

Além disso, uma caixa de papelão cheia de garrafas vazias de cerveja Heineken apareceu do lado de fora do pavilhão, o que reforçou a suspeita de consumo de bebida alcoólica dentro da unidade.

Ambiente se parecia mais com alojamento do que com presídio

O conjunto de imagens revela quartos com aparência de alojamento doméstico, e não de cela prisional.

Banheiros com acabamento em cerâmica, camas com roupas confortáveis, mantimentos em grande quantidade e presença de objetos proibidos reforçaram a percepção de total relaxamento do controle interno.

Na prática, o que deveria funcionar como unidade de custódia para militares presos acabou exibindo sinais de permissividade extrema.

Presos respondiam por homicídio, crimes sexuais e outros delitos graves

O cenário de regalias chamou ainda mais atenção por causa do perfil dos custodiados.

Imagem: Reprodução

Segundo um documento mostrado nas imagens, dos 83 presos listados em triagem recente:

  • 33,73% respondiam por homicídio
  • 16,87% estavam presos por crimes sexuais, incluindo estupro de vulnerável
  • 15,66% respondiam por roubo, extorsão e sequestro

O restante se dividia entre acusações de tráfico de drogas, abandono de posto, posse ilegal de armas e outros crimes militares.

Fuga de 23 PMs acelerou desativação da unidade

A crise no núcleo prisional se agravou de vez após a fuga de 23 policiais militares, registrada em 27 de fevereiro deste ano.

A corporação só descobriu a ausência dos detentos durante uma vistoria de rotina. O episódio escancarou a fragilidade da unidade e mostrou que o controle sobre os presos já havia colapsado.

Depois disso, o MPAM deflagrou a Operação Sentinela, em março, e prendeu policiais plantonistas suspeitos de facilitar as fugas.

O escândalo também atingiu a chefia da unidade. O então diretor do núcleo, major Galeno Edmilson de Souza Jales, acabou preso durante as investigações e depois foi excluído da corporação por ato do governo estadual.

Transferência provocou protestos e tensão

A retirada dos presos da unidade não ocorreu sem reação.

Após mais de cinco horas de operação, transferência de PMs presos começa no Amazonas — Foto: Lucas Macedo/g1 AM

Durante a operação desta terça-feira, familiares tentaram impedir a saída dos ônibus da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap). Houve protestos na frente da unidade, e algumas pessoas chegaram a se deitar no asfalto para bloquear o comboio.

Diante da resistência, equipes da Tropa de Choque e da Rocam intervieram para liberar a passagem. Segundo o relato do texto-base, os agentes usaram spray de pimenta para dispersar a multidão.

Nova unidade promete regras mais rígidas

A nova UPPM/AM funciona no prédio da antiga Penitenciária Feminina de Manaus, ao lado do Compaj, na BR-174.

Segundo a estrutura apresentada pelas autoridades, a unidade passa a operar com regras formais do sistema penitenciário estadual e promete romper com o modelo anterior, marcado por improviso, permissividade e falta de controle.

De acordo com a autoridade citada no texto-base, os policiais transferidos não terão contato com presos comuns, mas ficarão em uma unidade com padrão prisional mais rígido e maior controle administrativo.

As visitas devem ser retomadas a partir de domingo, já sob as normas do sistema carcerário estadual.

Operação expõe crise no sistema de custódia da PM

A desativação do antigo presídio da PM não representa apenas uma mudança de endereço.

Na prática, a operação escancarou um sistema paralelo de privilégios dentro de uma unidade prisional que deveria assegurar disciplina, controle e cumprimento de pena. Além disso, a transferência dos detentos ocorre sob o peso de uma crise institucional provocada por fugas, denúncias de facilitação e exposição de regalias incompatíveis com qualquer regime de custódia.

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