Por Jota Garcia
A pré-candidatura do ex-deputado federal Cabo Daciolo ao Senado pelo estado, anunciada em Manaus com direito a plateia, pastores e palavras de ordem, é mais um capítulo de um fenômeno antigo no Brasil: o político itinerante, aquele que desembarca onde há vaga, voto e alguma chance de holofote.
A diferença é que, desta vez, o salto foi dado em plena floresta — e sem qualquer sinal de que o candidato conheça o terreno onde pretende pousar.
Daciolo, figura folclórica da política nacional, construiu sua trajetória à base de discursos inflamados, referências religiosas e uma habilidade incomum de se manter relevante mesmo fora dos centros tradicionais de poder. Mas relevância não é sinônimo de enraizamento. E é justamente aí que o Amazonas entra como cenário — e vítima — de uma prática que já deveria ter sido superada: a importação de candidaturas.
O estado, com seus desafios logísticos, sociais e ambientais singulares, não é exatamente um território para amadores ou aventureiros políticos. Governar — ou legislar — sobre o Amazonas exige mais do que fé e retórica. Exige conhecimento de causa, convivência com a realidade local e, sobretudo, compromisso contínuo com uma população que historicamente já foi tratada como periférica demais para merecer atenção permanente de Brasília.
Transformar o Amazonas em “porto seguro” para candidaturas de ocasião é reduzir sua complexidade a um mero cálculo eleitoral. É como se o estado fosse uma espécie de território neutro, disponível para quem quiser tentar a sorte, desde que traga um discurso pronto e alguma visibilidade nacional. Não é. Ou não deveria ser.
Nesse contexto, o papel do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) ganha relevância que vai além da burocracia. Não se trata de barrar candidaturas — a lei é clara e deve ser respeitada —, mas de garantir que o processo eleitoral não seja capturado por distorções que enfraquecem a representação política. A legislação permite domicílio eleitoral com relativa facilidade, e é justamente essa brecha que transforma estados como o Amazonas em alvos preferenciais de “paraquedistas”.
O problema não é novo. Já houve outros nomes que, sem raízes locais, tentaram se viabilizar politicamente por aqui. Alguns chegaram lá. Outros serviram apenas como nota de rodapé. Em todos os casos, o eleitor amazonense foi convidado a decidir entre o conhecido — com seus defeitos — e o desconhecido — com promessas genéricas e pouca conexão com a realidade regional.
Daciolo entra nesse roteiro com seu estilo peculiar, misto de profeta e candidato. Seu discurso pode encontrar eco em nichos específicos, especialmente entre eleitores que se sentem desiludidos com a política tradicional. Mas a pergunta que paira — e que não pode ser ignorada — é simples: o que exatamente ele sabe sobre o Amazonas além do mapa?
Porque conhecer o estado não é apenas saber onde fica Manaus ou repetir slogans sobre a Amazônia. É entender a dinâmica dos rios que substituem estradas, a economia que oscila entre a Zona Franca e a informalidade, a pressão internacional sobre a floresta e o abandono histórico das comunidades ribeirinhas. É, em suma, viver o Amazonas — ou, ao menos, demonstrar um esforço consistente de compreendê-lo.
Sem isso, o risco é transformar o Senado em mais um palco para performances desconectadas da realidade local. E o eleitor amazonense, mais uma vez, fica com a tarefa de separar o discurso do compromisso.
No fim das contas, a política não deveria ser um esporte radical. Mas, no Brasil — e no Amazonas —, há quem insista em tratá-la como salto no escuro. Alguns caem em pé.
Outros, nem tanto.






