Coluna do Jota Garcia

Opinião – Amazonas 2026: todos os candidatos precisam de reciclagem

Por Jota Garcia

Por uma urna menos poluída por promessas descartáveis

No Amazonas, a campanha eleitoral parece um daqueles aterros sanitários clandestinos que ninguém assume a autoria, mas todo mundo sabe onde fica. A cada eleição, toneladas de promessas são despejadas sobre o eleitorado sem qualquer preocupação ambiental, fiscal ou moral. Terminada a apuração, sobra apenas o mau cheiro.

A população amazonense já não enfrenta apenas a velha prática da promessa vazia. O problema ganhou escala industrial. O que antes era artesanato eleitoral virou linha de montagem. Os candidatos entram, apertam alguns botões, gravam vídeos emocionados, prometem mundos e fundos, e saem da fábrica com o produto pronto para consumo.

Manaus continua convivendo com ruas que desafiam a engenharia, o trânsito que desafia a paciência e serviços públicos que desafiam a lógica. Mas basta chegar o período eleitoral para surgir uma legião de especialistas instantâneos em mobilidade urbana, saúde, educação, segurança pública e até felicidade coletiva.

Os deputados federais aparecem como turistas políticos. Passam quatro anos orbitando Brasília e retornam ao Amazonas como exploradores que acabaram de descobrir um território desconhecido. Fazem discursos sobre bairros que não visitam, problemas que não enfrentam e comunidades que conhecem apenas pelas fotografias recebidas em grupos de WhatsApp.

Os senadores representam uma categoria ainda mais sofisticada. Muitos parecem viver em uma dimensão paralela onde o povo é uma abstração estatística. Seus escritórios são organizados, climatizados e protegidos das inconveniências da realidade. O eleitor comum raramente os encontra caminhando pelas ruas ou ouvindo reclamações sem uma barreira de assessores entre eles e a vida real.

Na disputa pelo Governo do Estado, o roteiro também não muda. Os candidatos falam do futuro com entusiasmo contagiante e do passado com uma cautela quase cirúrgica. Alguns escondem antigos padrinhos políticos. Outros fingem não conhecer velhos aliados. Há ainda aqueles que tratam fotografias históricas como se fossem montagens produzidas por inteligência artificial.

O fenômeno mais curioso, entretanto, é a multiplicação familiar do poder. O sobrenome tornou-se uma espécie de franquia política. Um ocupa cargo no Executivo, outro no Legislativo, um terceiro aparece em função estratégica e, quando sobra espaço, surge um parente para ocupar alguma posição relevante. A árvore genealógica passa a ter mais influência que o currículo.

Enquanto isso, alianças improváveis florescem. Inimigos históricos descobrem afinidades repentinas. Adversários ferozes trocam acusações durante anos para, mais tarde, dividirem o mesmo palanque sob o argumento da “maturidade política”. Traduzindo para o português claro: a memória do eleitor continua sendo considerada o recurso mais subestimado da democracia brasileira.

O resultado é uma sensação coletiva de repetição. Mudam os slogans, mudam as cores das campanhas, mudam os jingles e os marqueteiros. Mas a essência permanece intacta. São as mesmas promessas recicladas, os mesmos grupos de interesse, os mesmos acordos de bastidores e as mesmas justificativas quando nada acontece.

Talvez a maior reforma política necessária no Amazonas não esteja na legislação, mas na reciclagem das práticas e dos personagens. Não uma reciclagem cosmética, dessas que trocam apenas a embalagem, mas uma renovação verdadeira de comportamento, compromisso e transparência.

Porque o eleitor amazonense já demonstrou inúmeras vezes que sabe identificar propaganda. O que ele procura agora é algo muito mais raro: autenticidade.

Até lá, a campanha seguirá produzindo toneladas de discursos inflamados. E o cidadão continuará fazendo o trabalho que ninguém mais quer fazer: separar o que é proposta do que é lixo político.

No Amazonas de 2026, a questão não é quem promete mais.

É quem finalmente consegue convencer que não está vendendo o mesmo produto vencido de sempre.