Por Jota Garcia
A política brasileira tem dessas assimetrias que não cabem em planilhas, mas saltam aos olhos quando se alinham os fatos. Na noite em que o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro decidiu pela cassação do governador Cláudio Castro, reacendeu-se, em Brasília e fora dela, uma pergunta que já vinha sendo feita em voz baixa: por que o processo envolvendo o governador de Roraima, Antonio Denarium, permanece há tanto tempo à espera de julgamento no Tribunal Superior Eleitoral?
Não se trata de casos idênticos — nunca são. Cada processo carrega sua própria engenharia jurídica, suas provas, suas circunstâncias e seus ritos. Ainda assim, há um elemento comum que incomoda: o tempo. No Brasil, a Justiça Eleitoral é conhecida tanto pela celeridade em alguns episódios quanto pela lentidão quase geológica em outros. Essa variação alimenta suspeitas, nem sempre justas, mas inevitáveis.
Antonio Denarium foi alvo de decisões no âmbito regional que apontaram irregularidades eleitorais graves, incluindo acusações de abuso de poder político e econômico. Em qualquer democracia funcional, acusações dessa natureza não são triviais: atingem o coração do processo eleitoral. O percurso natural seria o exame rápido pelo TSE, instância final da Justiça Eleitoral, para dar segurança jurídica — seja confirmando, seja revertendo as decisões anteriores.
Mas o processo se arrasta. Dois anos, em Brasília, não são apenas dois anos. São duas eleições municipais se aproximando, são rearranjos políticos em curso, são decisões administrativas tomadas por um governante cuja situação jurídica segue indefinida. O tempo, nesses casos, deixa de ser neutro. Ele passa a ter efeitos políticos concretos.
A presidência do TSE, hoje sob a condução da ministra Cármen Lúcia, tem a prerrogativa de organizar a pauta. Não é um poder arbitrário, mas também não é automático. Entre a pilha de processos, prioridades são estabelecidas — algumas por urgência evidente, outras por pressão institucional, outras ainda por razões que raramente são explicitadas com clareza ao público.
É aí que nasce o ruído.
A comparação com o caso de Cláudio Castro não implica equivalência jurídica, mas escancara uma diferença de ritmo. Quando um caso avança e outro permanece parado, a percepção pública tende a preencher o vazio com desconfiança. E a Justiça, sobretudo a Eleitoral, vive de credibilidade.
Não é a primeira vez que isso ocorre. Ao longo das últimas décadas, o TSE alternou momentos de atuação célere — como em julgamentos que alteraram mandatos em pleno exercício — com períodos em que processos sensíveis parecem entrar numa espécie de hibernação institucional. O problema não é apenas jurídico; é político e, sobretudo, institucional.
Para a ministra Cármen Lúcia, conhecida por sua ênfase na transparência e na defesa das instituições, o desafio é clássico: não basta fazer justiça, é preciso que ela seja percebida como tal. E percepção, nesse caso, passa por previsibilidade. Quando um processo permanece dois anos sem julgamento, a ausência de explicação clara abre espaço para interpretações — algumas benignas, outras nem tanto.
No entorno do TSE, a explicação costuma ser técnica: acúmulo de processos, complexidade dos autos, necessidade de revisão minuciosa. Tudo isso é plausível. Mas, em política, plausibilidade não encerra o assunto. O que não é explicado vira narrativa — e narrativa, em Brasília, raramente fica vazia por muito tempo.
No fim das contas, a pergunta que ecoa não é apenas sobre Denarium. É sobre o funcionamento do próprio sistema. A Justiça Eleitoral brasileira construiu, ao longo dos anos, uma reputação de eficiência que poucos países conseguem replicar. Mas essa reputação depende de consistência. Quando a régua parece variar, o desgaste é inevitável.
O caso de Roraima, portanto, deixou de ser apenas um processo. Tornou-se um teste silencioso para o TSE — e, em particular, para sua presidência. Porque, no Brasil, às vezes não é a decisão que mais pesa. É o tempo que se leva para tomá-la.






