Por Jota Garcia
Há momentos em que a política deixa escapar suas verdadeiras intenções não pelos discursos, mas pelos gestos. Um movimento de corpo, uma corrida para aparecer na fotografia oficial, um cotovelo atravessado diante das câmeras, um olhar de ansiedade eleitoral. No Amazonas, durante agenda institucional com o presidente Lula, o Amazonas viu uma dessas cenas reveladoras.
O episódio causou desconforto nos bastidores do Palácio do Planalto. Um senador amazonense, em pré-campanha aberta ao governo do Estado, atropelou o protocolo para ocupar posição de destaque ao lado do presidente da República, avançando inclusive diante do governador Roberto Cidade no momento da fotografia oficial. Lula percebeu. Testemunhas relatam irritação visível do presidente, que teria reagido com impaciência diante da disputa infantil por espaço político.
O gesto parece pequeno. Não é.
Na política, a fotografia é documento de poder. E quando um político abandona a liturgia institucional para disputar centímetros de enquadramento, revela mais do que vaidade: demonstra insegurança eleitoral.
O Amazonas vive hoje um fenômeno curioso. Obras que passaram anos abandonadas, esquecidas ou tratadas como inviáveis tornaram-se subitamente prioridade absoluta no calendário eleitoral de 2026. A BR-319 reapareceu nos discursos inflamados de antigos céticos. O Porto de Manaus, sucateado há décadas, emergiu das sombras administrativas como se tivesse sido descoberto ontem.
O problema não é defender obras públicas. O problema é a memória.
Os dois senadores que agora falam em infraestrutura ocupam posições centrais no poder amazonense há quase duas décadas. Foram governadores, comandaram máquinas administrativas bilionárias, tiveram influência em Brasília e presença nos ministérios. Durante esses períodos, porém, a BR-319 era tema delicado. Tratava-se quase de um tabu ambiental e político.
Quando governavam, prevalecia a prudência burocrática. Agora, em período pré-eleitoral, surgiu a súbita coragem desenvolvimentista.
A transformação é impressionante.
A BR-319 deixou de ser “complexa” para virar bandeira eleitoral. O Porto de Manaus, antes ignorado nas falas oficiais, converteu-se em símbolo de indignação pública. O eleitor amazonense assiste a uma espécie de milagre político tardio: antigos administradores descobriram problemas históricos exatamente quando precisam disputar votos.
Não se trata de coincidência.
O Porto Público de Manaus talvez seja o exemplo mais emblemático dessa contradição. O terminal, localizado no coração da capital amazonense, foi alvo de um processo de privatização cercado de interesses econômicos poderosos, disputas judiciais e movimentações empresariais discretas em Brasília. Há anos circulam liminares, recursos e pressões envolvendo o controle da estrutura portuária.
Muito dinheiro transita nesse tabuleiro.
Durante longo período, prevaleceu o silêncio político. Poucos parlamentares quiseram tocar no assunto. Menos ainda enfrentaram os grupos econômicos interessados na operação portuária. O tema permanecia restrito a gabinetes técnicos, tribunais federais e negociações empresariais.
Agora, porém, o porto virou discurso de campanha.
A pergunta inevitável é simples: por que somente agora?
O eleitor amazonense não sofre de amnésia coletiva. Lembra perfeitamente quem ocupava o poder quando o Porto de Manaus perdeu competitividade, quando a infraestrutura urbana colapsou ao redor da área central e quando os debates sobre logística foram substituídos por disputas eleitorais menores.
Há ainda outro elemento nessa encenação política: a tentativa de transformar obras públicas em patrimônio pessoal de candidatos.
A lógica é antiga no Brasil. Políticos tratam investimentos federais como favores individuais. Uma ponte deixa de ser política de Estado e vira troféu eleitoral. Uma rodovia passa a ser apresentada como conquista pessoal. Um porto torna-se peça de marketing.
Lula conhece esse método há décadas. Talvez por isso tenha se incomodado tanto com a cena da fotografia. Presidentes experientes sabem identificar quando um aliado está menos interessado na obra e mais preocupado com o palanque.
O Amazonas entra numa eleição marcada pela teatralização da infraestrutura.
Todos defendem estradas. Todos defendem o porto. Todos defendem desenvolvimento.
Mas poucos explicam por que o entusiasmo surgiu tão tarde.
A política amazonense possui uma característica histórica: costuma transformar urgências estruturais em instrumentos eleitorais cíclicos. O drama da BR-319 reaparece em toda eleição majoritária. O Porto de Manaus ressurge em momentos de disputa pelo governo estadual. A Zona Franca entra no discurso sempre que Brasília ameaça mudanças tributárias.
Depois da eleição, quase tudo retorna à lentidão habitual.
O eleitor do Amazonas talvez esteja diante da pergunta mais importante de 2026: quem realmente deseja resolver os problemas históricos do Estado — e quem apenas deseja aparecer na fotografia da solução?






