Por Jota Garcia
A transferência de cerca de 70 policiais militares do antigo Núcleo Prisional do Monte das Oliveiras para uma nova unidade na BR-174 escancarou muito mais do que uma mudança administrativa no sistema prisional do Amazonas. O episódio revelou, novamente, uma velha prática da política amazonense: transformar qualquer crise institucional em palanque eleitoral, ainda que isso signifique relativizar privilégios ilegais, atacar instituições de controle e explorar emocionalmente familiares de presos.
A reação de alguns vereadores, especialmente Capitão Carpê e Coronel Rosses, não foi construída em torno de um debate sério sobre legalidade, execução penal ou direitos humanos. O discurso adotado buscou criar uma narrativa de perseguição, abandono e “risco iminente”, como se o problema central fosse o desconforto dos policiais transferidos — e não o escandaloso sistema de regalias que vinha sendo mantido dentro da unidade prisional.
O que o Ministério Público do Amazonas revelou é grave demais para ser tratado como detalhe secundário. Não se trata de mera discussão sobre estrutura física. As investigações apontam que presos considerados de alta periculosidade tinham acesso a cerveja Heineken, internet Wi-Fi, aparelhos eletrônicos, ar-condicionado, alimentação diferenciada e outros benefícios incompatíveis com qualquer conceito minimamente sério de cumprimento de pena.
A pergunta inevitável é: quem sustentava esse modelo?
Porque privilégios dessa natureza não surgem espontaneamente. Eles dependem de permissividade institucional, omissão administrativa e, muitas vezes, proteção política indireta. Quando parlamentares aparecem rapidamente para atacar a operação que desmontou esse ambiente, mas permanecem silenciosos diante das ilegalidades denunciadas, a impressão transmitida à sociedade é devastadora.
O discurso da “defesa da tropa” possui forte apelo emocional, principalmente em um estado onde parte da população reconhece os riscos enfrentados diariamente pelos policiais militares. Entretanto, existe uma diferença profunda entre defender direitos legais de agentes públicos e defender um sistema paralelo de privilégios incompatíveis com a lei.
A atividade parlamentar exige responsabilidade. Alarmismos como previsão de “grande chacina”, feitos sem apresentação objetiva de provas técnicas, podem gerar pânico, instabilidade institucional e servir apenas como instrumento de mobilização política. Quando autoridades eleitas substituem debate técnico por retórica inflamada para engajar redes sociais, o resultado é a deterioração da confiança pública.
O caso também evidencia um problema estrutural do Amazonas: a cultura da blindagem corporativa. Em muitos episódios envolvendo agentes do Estado, parte da classe política abandona qualquer postura fiscalizatória e passa a atuar quase como assessoria de defesa de determinados grupos. O silêncio seletivo torna-se regra. Questiona-se a operação, mas evita-se discutir o que permitiu que aquela situação existisse por tanto tempo.
A memória política amazonense possui vários exemplos semelhantes. Escândalos graves frequentemente são tratados conforme a conveniência eleitoral do momento. Há indignação performática quando interessa politicamente, e silêncio absoluto quando a denúncia atinge aliados, corporações influentes ou setores capazes de gerar capital eleitoral.
Nesse contexto, a “Operação Sentinela Maior” ultrapassa a dimensão prisional. Ela expõe o choque entre dois modelos: de um lado, instituições tentando demonstrar autoridade sobre estruturas historicamente marcadas por privilégios; de outro, setores políticos que enxergam qualquer ação disciplinadora como oportunidade para produzir narrativas populistas.
Defender direitos humanos e condições dignas de custódia é legítimo e necessário — inclusive para policiais presos. O Estado não pode agir com ilegalidade ou abandono contra nenhum detento. Porém, dignidade não se confunde com regalias. Garantia constitucional não significa transformar unidade prisional em ambiente de conforto premium financiado indiretamente pela sociedade.
O eleitor amazonense precisa observar com atenção esse tipo de comportamento político. Porque existe uma diferença clara entre fiscalização séria e demagogia oportunista. Fiscalizar significa cobrar transparência, legalidade e segurança para todos. Demagogia é utilizar crises institucionais como palco para “lacração”, explorando revolta momentânea sem enfrentar o núcleo real do problema.
No fim, a pergunta que permanece é simples: quem realmente estava defendendo a legalidade — e quem apenas defendia a manutenção de um sistema de privilégios?






