Coluna do Jota Garcia

Opinião – Governo Roberto Cidade: um avião em voo sem cabine de comando

Por Jota Garcia

A política amazonense conhece bem o fenômeno: grupos políticos fortes confundem estrutura com liderança, mandato com projeto e poder institucional com capacidade eleitoral. São coisas diferentes. Às vezes, opostas.

Roberto Cidade entrou em 2026 carregando a expectativa de seu grupo político de se transformar no candidato natural ao governo do Amazonas. A lógica parecia simples nos corredores do poder: presença institucional diária, trânsito entre prefeitos, orçamento robusto, musculatura partidária e exposição pública contínua.

No papel, um candidato competitivo.

Na prática, um projeto que começa a apresentar sinais preocupantes de desorientação estratégica.

O problema não está apenas na campanha. Está na ausência de uma narrativa política clara.

Toda candidatura competitiva precisa responder a três perguntas elementares: quem lidera, para onde vai e contra quem disputa espaço.

Hoje, o entorno político de Roberto Cidade parece incapaz de responder qualquer uma delas com convicção.

A engrenagem funciona como uma máquina burocrática: muitas reuniões, muitos registros fotográficos, muitas agendas administrativas e pouca política real. A sensação transmitida é a de um governo em estado permanente de expediente interno. Há atividade, mas não há direção perceptível.

Na política contemporânea, especialmente na amazônica, isso custa caro.

O eleitor digital não acompanha atas de reuniões. Consome símbolos, conflitos, posicionamentos e liderança emocional. O ambiente eleitoral mudou radicalmente nos últimos anos, mas setores tradicionais da política local continuam operando como se ainda estivéssemos na década do marketing televisivo centralizado.

Não estamos.

Hoje, campanhas são construídas diariamente na velocidade dos algoritmos, das narrativas instantâneas e da ocupação permanente do imaginário popular. Quem desaparece da conversa pública perde densidade eleitoral em silêncio.

É exatamente esse o risco que ronda o projeto político de Roberto Cidade.

A campanha para a Prefeitura de Manaus já havia deixado sinais evidentes desse problema estrutural. Houve excesso de planejamento interno e ausência de comunicação orgânica. Muito cálculo institucional e pouca conexão emocional. O eleitor enxergava estrutura, mas não enxergava propósito.

A impressão que ficou foi a de uma candidatura pesada, burocrática e excessivamente protegida pelo próprio entorno político.

Agora, parte da mesma assessoria reaparece no centro do novo projeto eleitoral. E os sintomas se repetem quase como uma reincidência estratégica: dificuldade de criar agenda pública própria, comunicação defensiva, baixa sintonia com o ambiente digital e ausência de enfrentamento político claro.

Enquanto isso, os adversários avançam.

Na política, vazio narrativo nunca permanece vazio por muito tempo. Ele é ocupado.

Semanas improdutivas – vale ouro para os concorrentes. Cada dia sem construção de identidade eleitoral reduz espaço futuro. Campanhas não nascem seis meses antes da eleição. Elas são sedimentadas lentamente no subconsciente coletivo.

Os adversários compreenderam isso.

Alguns operam no conflito permanente. Outros trabalham nichos específicos do eleitorado. Há quem invista pesado em redes sociais, há quem percorra o interior criando vínculos silenciosos, e há quem compreenda que política moderna exige presença contínua, mesmo sem mandato.

Já o grupo de Roberto Cidade transmite uma perigosa sensação de espera.

Espera pelo momento certo.

Espera pela definição dos aliados.

Espera pelo alinhamento do grupo.

Espera pela acomodação nacional.

Espera pela abertura oficial do jogo.

Política raramente recompensa quem espera demais.

O eleitor não costuma premiar candidatos que aparentam depender exclusivamente da força de grupos políticos. Governadores competitivos normalmente conseguem transmitir comando pessoal, convicção e direção própria. Quando isso não acontece, nasce a percepção de tutela — e candidaturas tuteladas quase sempre enfrentam dificuldade para empolgar.

No Amazonas, onde a política tradicional convive com forte personalismo eleitoral, esse detalhe pesa ainda mais.

Falta hoje ao projeto de Roberto Cidade aquilo que antigos caciques chamavam de “quilha”. A peça invisível que estabiliza a embarcação em águas turbulentas. Sem ela, qualquer vento lateral desloca o eixo político.

A ausência de prioridades claras aprofunda o problema. Quais bandeiras pretende defender? Qual marca deseja deixar? Qual conflito deseja protagonizar? Qual Amazonas pretende simbolizar?

Ainda não há respostas consistentes circulando no debate público.

E campanhas sem síntese política acabam reféns da agenda dos outros.

Existe tempo para correção? Evidentemente existe. Eleições longas permitem reconstruções improváveis. A política brasileira é pródiga em ressuscitar candidaturas consideradas frágeis.

Mas tempo político não é infinito.

Maio de 2026 já não é pré-campanha inocente. É fase de consolidação de território eleitoral.

Os adversários sabem disso. E, discretamente, agradecem cada dia em que o principal nome governista parece mais ocupado em administrar reuniões do que em construir liderança.

No fim, permanece a metáfora inevitável: o avião está no ar, possui combustível, possui estrutura, possui rota desenhada pelo grupo político — mas ainda não convenceu que existe alguém, de fato, pilotando a cabine.