Coluna do Jota Garcia

Polícia israelense impede cardeal de entrar no Santo Sepulcro para missa de Ramos e caso vira crise diplomática

O cardeal Pierbattista Pizzaballa (ao centro), patriarca latino de Jerusalém, na Santo Sepulcro, em Jerusalém, durante missa em abril do ano passado — Foto: John Wessels / AFP / 23-4-2025

Medida ocorreu após fechamento de locais sagrados na Cidade Velha desde o início da guerra com o Irã; Brasil, França, Itália e Espanha criticam.

O que aconteceu em Jerusalém

A polícia israelense impediu o Patriarca Latino de Jerusalém de celebrar o Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro. Segundo o Patriarcado, foi a “primeira vez em séculos” que líderes da Igreja ficaram barrados de celebrar a missa no local.

O cardeal Pierbattista Pizzaballa e o frei Francesco Ielpo foram abordados quando seguiam a pé para a igreja. O Patriarcado relatou que a ação interrompeu a celebração principal do início da Semana Santa.

Israel diz que fechou locais sagrados por “segurança”

A polícia israelense afirmou que fechou todos os locais sagrados da Cidade Velha desde o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã. Segundo a corporação, o foco recaiu especialmente sobre áreas sem abrigos antibombas.

A justificativa aponta um problema logístico. De acordo com a polícia, a Cidade Velha tem ruas estreitas e não permite acesso rápido de veículos de emergência. Por isso, um incidente com múltiplas vítimas poderia virar risco real à vida humana.

Restrições atingem Páscoa, Ramadã e Pessach

As restrições aconteceram em um período sensível para diferentes religiões. O Domingo de Ramos abre a Semana Santa, que antecede a Páscoa. Além disso, a medida afetou o Ramadã e o Pessach (Páscoa judaica), que também costumam lotar a Cidade Velha.

Missa na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém
Imagem: Gali Tibbon/AFP

A reportagem descreve que a Mesquita de Al-Aqsa ficou praticamente vazia durante o Ramadã. Da mesma forma, houve baixa presença de fiéis no Muro das Lamentações na aproximação do Pessach.

Netanyahu nega malícia e fala em “proteção”

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que não houve intenção maliciosa. Segundo ele, a ação teria ocorrido por “preocupação com a segurança” do cardeal.

Moradores apontam “dois pesos” na fiscalização

Apesar da explicação oficial, moradores e autoridades religiosas afirmam que a fiscalização não seguiu o mesmo padrão para todos. Eles dizem que pregadores muçulmanos do Waqf conseguiram acessar Al-Aqsa em momentos do Ramadã e do Eid al-Fitr. Além disso, funcionários de limpeza teriam tido permissão para rituais no Muro das Lamentações antes do Pessach.

Foto: Foto: Hauke-Christian Dittrich/picture alliance

Ainda assim, frades franciscanos e fiéis conseguiram entrar em outro santuário da Cidade Velha para celebrar o Domingo de Ramos. Uma foto citada no texto mostra um grupo pequeno, de cerca de uma dúzia de pessoas, em oração com ramos de palmeira.

O porta-voz do Patriarcado, Farid Jubran, afirma que a polícia sabia que a missa ocorreria de forma privada e a portas fechadas. Mesmo assim, segundo ele, os agentes insistiram em impedir o acesso.

Reações internacionais ampliam desgaste

O episódio provocou reações de governos e lideranças internacionais.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil condenou a ação. A nota cita a gravidade do ocorrido, menciona o status quo histórico dos sítios sagrados e lembra o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, de 19 de julho de 2024, sobre a presença de Israel no Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental.

Na Europa, as críticas cresceram.

O premiê espanhol Pedro Sánchez condenou o impedimento e exigiu respeito à liberdade religiosa e ao direito internacional.

A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni classificou a restrição como ofensa à liberdade religiosa. Além disso, o chanceler Antonio Tajani afirmou que convocaria o embaixador de Israel para esclarecimentos.

O presidente francês Emmanuel Macron também condenou a decisão. Segundo ele, o caso se soma ao que chamou de aumento preocupante de violações do estatuto dos Lugares Santos em Jerusalém.

Já o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, disse que é “muito difícil de entender ou justificar” a proibição.

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