Coluna do Jota Garcia

EUA pressionam que Brasil receba presos estrangeiros e cobram plano para “acabar” com PCC e CV

Foto: Ricardo Stuckert / PR

Washington enviou uma contraproposta ao plano brasileiro de cooperação em segurança. Entre os pontos, estão transferência de presos, compartilhamento de dados biométricos e ações contra crime transnacional. O Planalto rejeitou partes do pacote e mantém negociação antes de eventual encontro Lula–Trump.

O que os EUA propõem

Segundo a reportagem, o governo Trump sugeriu que o Brasil receba em prisões brasileiras estrangeiros capturados nos Estados Unidos, em um modelo comparado ao de El Salvador. A ideia apareceria dentro de um pacote maior de cooperação em segurança que os dois governos discutem.

Além disso, Washington teria pedido que o Brasil apresente um plano para “acabar” com PCC e CV, e também menciona outras organizações tratadas pelos EUA como ameaças transnacionais.

O que o Brasil propôs primeiro

De acordo com o noticiário recente sobre as tratativas, o governo brasileiro colocou na mesa um plano com foco em crime financeiro e fluxos internacionais, incluindo:

Carros incendiados e moradores assustados: cenário de guerra no Rio Foto: Tânia Rêgo-ABr
  • combate à lavagem de dinheiro e rastreio de empresas de fachada,
  • bloqueio de ativos no exterior,
  • reforço de cooperação entre órgãos fiscais e alfandegários,
  • e ações contra tráfico de armas e transações via criptoativos.
Por que o Planalto resiste

Brasília vê risco político e jurídico em parte das demandas americanas, principalmente em duas frentes:

  1. Soberania e narrativa de “intervenção”
    No governo, cresce a preocupação de que a classificação de facções como terrorismo (tema em debate nos EUA) amplie instrumentos externos e vire pressão sobre a política interna brasileira.
  2. Uso político em ano pré-eleitoral
    O Planalto teme exploração do tema no debate doméstico e tenta construir uma linha de comunicação e cooperação que evite escalada.
A questão dos refugiados e dados biométricos

A contraproposta americana também menciona maior troca de informações sobre fluxo migratório, incluindo dados biométricos de estrangeiros em busca de refúgio. Esse ponto aparece como parte de uma estratégia mais ampla de combate a crime transnacional e controle de fronteiras.

O que pode acontecer agora

As equipes dos dois países tentam chegar a um texto aceitável para anúncio conjunto em uma eventual visita presidencial (discutida para março e com possibilidade de ficar para abril, segundo reportagens). Até aqui, porém, o Brasil não aceitou itens centrais da contraproposta americana e mantém a negociação aberta.

Risco prático para o Brasil se esse debate escalar
  • Pressão diplomática e de agenda: EUA podem condicionar cooperação a uma linguagem de “terrorismo” que o Brasil evita.
  • Efeito fronteira: se os EUA ampliarem ações regionais (e parceiros aderirem), o crime pode migrar rotas e aumentar atrito em corredores sensíveis, como a Tríplice Fronteira. (Inferência com base no padrão de deslocamento de rotas sob repressão; não é previsão.)
  • Judicialização e ruído interno: temas como transferência de presos e biometria tendem a gerar contestação jurídica e disputa política doméstica.

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