Por Jota Garcia
Há duas Parintins durante o festival. A primeira é a cidade que transforma cultura em potência econômica, reúne milhares de visitantes, movimenta hotéis, restaurantes, artesãos, barqueiros, vendedores ambulantes e projeta o Amazonas para o mundo. A segunda é a cidade ocupada pela romaria dos políticos, que desembarcam vestidos de torcedores, mas carregando na bagagem o velho manual da campanha eleitoral.
No Bumbódromo, Caprichoso e Garantido disputam a preferência do público. Nos camarotes, discretamente, começa outra disputa: a corrida pelo Governo do Amazonas, pelo Senado, pela Câmara dos Deputados e pela Assembleia Legislativa. O festival deixa de ser apenas espetáculo cultural para se transformar em vitrine eleitoral.
Não há ideologia que resista ao calendário das urnas.
Ali, desaparecem as diferenças entre direita, esquerda e centro. Católicos fervorosos dividem espaço com evangélicos, espíritas, ateus e políticos que, durante o restante do ano, criticam manifestações populares ou religiosas conforme a conveniência. Em Parintins, todos vestem a camisa da cultura amazonense. Terminado o festival, cada um retorna ao seu discurso habitual, adaptando a narrativa ao público que pretende conquistar.
A política brasileira sempre compreendeu o valor simbólico das festas populares. O Carnaval, o Círio de Nazaré, as festas juninas e o Festival de Parintins são palcos onde o eleitor está emocionalmente disponível. O problema surge quando a celebração cultural deixa de ser protagonista e passa a servir apenas como cenário para a fotografia eleitoral.
O sorriso distribuído nos camarotes
costuma durar menos do que os fogos de artifício que iluminam a arena. Muitos dos que hoje abraçam artistas, cumprimentam brincantes e exaltam a cultura local permanecem ausentes quando termina a festa e começam os problemas cotidianos: hospitais sem estrutura, escolas precárias, transporte fluvial inseguro, interior abandonado e municípios dependentes de repasses estaduais.
A política gosta de símbolos. O eleitor, cada vez mais, prefere resultados.
Parintins talvez seja uma das cidades mais politizadas do interior do Amazonas. Ao longo das últimas décadas, recebeu governadores, ministros, senadores e presidentes. Ouviu promessas de aeroportos ampliados, investimentos permanentes no turismo, incentivos à economia criativa e projetos de desenvolvimento regional. Parte saiu do papel; outra permaneceu apenas nos discursos embalados pelo ritmo das toadas.
O eleitor parintinense aprendeu a distinguir entusiasmo de compromisso.
Os turistas, por sua vez, chegam interessados em outra agenda. Vieram assistir ao espetáculo, consumir cultura, movimentar a economia e viver uma experiência única. Poucos estão dispostos a interromper a celebração para ouvir discursos de campanha ou participar do teatro das selfies políticas. O visitante leva para casa a lembrança do boi-bumbá, não necessariamente o nome de quem disputará uma eleição meses depois.
Existe um paradoxo curioso. Os candidatos imaginam que estar em Parintins significa aproximar-se do povo. Muitas vezes conseguem apenas aproximar-se das câmeras.
Enquanto isso, o Amazonas continua enfrentando desafios estruturais que sobrevivem a todos os festivais: isolamento logístico, desigualdade regional, deficiência na saúde pública, dificuldades na educação e uma economia que ainda busca diversificar suas fontes de crescimento. Esses problemas não desaparecem ao som dos tambores nem encontram solução em entrevistas improvisadas nos camarotes.
A democracia aceita a presença dos políticos em qualquer festa popular. Faz parte do jogo. O que não deveria ser natural é transformar manifestações culturais em grandes currais eleitorais, onde cada aperto de mão vale um voto imaginário e cada fotografia pretende substituir uma prestação de contas.
Quando as luzes do Bumbódromo se apagam e os turistas voltam para casa, resta ao amazonense uma pergunta simples: quantos dos candidatos que desfilaram pelo festival retornarão a Parintins sem eleição marcada, apenas para acompanhar a execução das promessas que fizeram — explícita ou silenciosamente — durante a temporada da festa?
Essa talvez seja a diferença entre quem visita a ilha em busca de votos e quem realmente compreende que o Festival de Parintins não precisa dos políticos para ser grandioso. São os políticos que precisam do Festival para parecerem maiores do que realmente são.






