O Festival Folclórico de Parintins é um dos maiores patrimônios culturais do Brasil. Muito além da disputa entre Caprichoso e Garantido, trata-se de um evento de interesse público, financiado direta e indiretamente por recursos públicos, incentivos culturais, apoio institucional e investimentos que justificam amplo acompanhamento da sociedade e da imprensa.
Nesse contexto, causa preocupação a informação o Blog do Pávulo teve seu credenciamento impedido pela TV A Crítica, sem que, segundo o relato, fosse apresentada uma justificativa clara para a decisão. A questão ultrapassa um simples problema administrativo e abre espaço para um debate sobre transparência, isonomia e liberdade de imprensa.
A primeira pergunta é inevitável: quem detém, de fato, a autoridade para decidir quais veículos podem exercer a cobertura jornalística de um evento dessa dimensão?
Em regra, o credenciamento da imprensa é uma atribuição da organização oficial do evento ou de uma assessoria de comunicação contratada para esse fim, baseada em critérios públicos, objetivos e iguais para todos. Quando uma empresa privada de comunicação concentra esse poder ou exerce influência decisiva sobre ele, surge um conflito que merece esclarecimento.
Se uma emissora participa apenas da transmissão oficial, sua função é produzir conteúdo audiovisual, e não selecionar quais jornalistas terão acesso ao evento. Caso tenha recebido essa atribuição formalmente, a sociedade tem o direito de saber:
Qual instrumento jurídico concedeu essa competência?
Quais foram os critérios utilizados?
Eles foram divulgados previamente?
Houve possibilidade de recurso para os veículos não credenciados?
Sem essas respostas, instala-se uma percepção de falta de transparência.
Outro aspecto relevante envolve o pluralismo da informação. O Festival de Parintins não pertence a uma emissora, a um patrocinador ou a um grupo econômico. Ele pertence ao patrimônio cultural do Amazonas e do Brasil. Limitar o acesso de determinados veículos, sem critérios públicos e fundamentados, pode reduzir a diversidade de narrativas disponíveis ao público.
A Constituição Federal assegura a liberdade de imprensa e protege o livre exercício da atividade jornalística. Embora organizadores possam estabelecer regras de acesso por motivos de segurança, logística ou capacidade física, essas restrições precisam ser objetivas, proporcionais e aplicadas de forma isonômica.
Se outros veículos em situação semelhante foram credenciados enquanto o Blog do Pávulo foi excluído, sem justificativa conhecida, é legítimo questionar quais critérios diferenciaram um caso do outro. A resposta não interessa apenas ao veículo afetado, mas também à credibilidade do próprio processo de credenciamento.
Também cabe destacar que o silêncio institucional costuma ampliar dúvidas. Quando um órgão ou empresa responsável deixa de explicar uma decisão que restringe o acesso da imprensa, abre espaço para especulações sobre favorecimentos, conflitos de interesse ou tratamento desigual. A transparência é o melhor caminho para preservar a confiança pública.
Por isso, as perguntas permanecem:
Quem autorizou a TV A Crítica a exercer influência sobre o credenciamento da imprensa? Essa atribuição decorre de contrato? Se sim, por que esse contrato não é amplamente conhecido? Quais critérios justificaram o impedimento do Blog do Pávulo? Houve possibilidade de contestação da decisão?
Esses questionamentos não representam uma acusação, mas um exercício legítimo do jornalismo. Em uma democracia, decisões que afetam o acesso da imprensa a eventos de interesse público devem ser explicadas com clareza, publicidade e respeito aos princípios da igualdade de tratamento.
Enquanto essas respostas não forem apresentadas, permanecerá a impressão de que o processo de credenciamento pode ter sido conduzido de forma pouco transparente. E quando a transparência é substituída pelo silêncio, quem perde não é apenas um veículo de comunicação, mas o direito da sociedade à informação plural e independente.






