Caso ocorreu durante passeio de lancha em Manaus; família cobra esclarecimentos e Polícia Civil não divulga detalhes da apuração
A Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) investiga, sob sigilo, as circunstâncias da morte do técnico de enfermagem Ruan Silveira Ferreira, de 31 anos, ocorrida na manhã de sábado (11), na Praia da Lua, balneário localizado às margens do Rio Negro, na zona rural de Manaus.
De acordo com o relatório da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), equipes foram acionadas por volta das 10h50 para atender uma ocorrência de possível afogamento. No local, policiais militares, bombeiros, peritos da Polícia Civil e uma equipe do Instituto Médico Legal (IML) encontraram o corpo de Ruan na faixa de areia.
O que aconteceu antes do afogamento?
Ainda conforme o relatório policial, pessoas que estavam na mesma lancha utilizada pela vítima informaram que o grupo havia participado de uma festa durante a noite de sexta-feira (10). Ao amanhecer de sábado, todos decidiram alugar uma embarcação para seguir até a Praia da Lua.
Segundo o relato prestado aos policiais militares, Ruan “estava muito alcoolizado” e entrou diversas vezes na água para mergulhar. Em um desses mergulhos, ele desapareceu. Posteriormente, banhistas que participavam das buscas localizaram o corpo.
Advogado aponta possível investigação por omissão de socorro
O advogado Kevin Teles afirmou que a apuração depende da realização de perícias técnicas antes da definição de eventual responsabilidade criminal.
“É preciso apurar os fatos e verificar como se dará a persecução penal, através de exames do IML e exames de sangue, para saber se ele realmente estava alcoolizado. Também é necessário verificar por quanto tempo ele ficou na água, porque, se esse período foi tão extenso a ponto de levá-lo a óbito, é porque ele não foi socorrido a tempo. Se eram amigos dele, é preciso saber se tinham ciência de que ele sabia ou não nadar. Tudo isso precisa ser verificado ao longo da persecução penal.”
Segundo o advogado, a repercussão do caso aumenta a cobrança por uma resposta das autoridades.
“No que diz respeito à responsabilidade, ainda mais em um caso midiático como o desse rapaz, desse enfermeiro, certamente a população vai querer uma resposta do Estado — no sentido estrito de cumprimento do múnus público. Ao se verificar se realmente houve omissão de socorro, todos que estavam na lancha terão que ser responsabilizados.”
Vídeo do resgate levanta questionamentos
Um vídeo que circula nas redes sociais mostra banhistas retirando o corpo da água enquanto diversos homens e mulheres permanecem na lancha.

Para Kevin Teles, as imagens podem ter relevância jurídica.
“Sim, isso pode agravar a situação. Além da omissão de socorro, essa inércia — não procurar o rapaz mesmo sem confirmação imediata do desaparecimento — pode pesar em uma futura pena.”
Ao mesmo tempo, o advogado ressalta que o vídeo, isoladamente, não comprova eventual crime.
“Nesse ponto, será necessário fazer uma oitiva das testemunhas para realizar uma acareação dos fatos. É preciso identificar quem gravou o vídeo e o horário exato da gravação. Por meio da acareação, cada envolvido pode apresentar sua versão dos fatos até se chegar a uma conclusão fática.”
Contradição sobre vínculo com a vítima
Outro trecho do relatório da Polícia Militar chamou atenção.
Os ocupantes da embarcação informaram aos policiais que não conheciam Ruan, embora também tenham relatado que todos participaram da mesma festa e seguiram juntos para a Praia da Lua.
Para Kevin Teles, essa aparente contradição poderá influenciar diretamente a investigação.
“Com certeza isso pode influenciar a investigação. Afinal, se não conheciam a vítima, por que participavam do mesmo ciclo de amizade? É preciso saber quem, entre os ocupantes da lancha, de fato conhecia a vítima, e se algum deles tinha algum problema com ela. Se for constatado que existia algum tipo de problema entre a vítima e um dos participantes, o que hoje se enquadra como omissão de socorro pode configurar também um homicídio.”
O advogado acrescentou que a investigação deverá analisar o grau de convivência entre todos os participantes.
“Ao longo da persecução penal, será preciso verificar as condições de convívio entre os participantes e o grau de intimidade entre eles.”
Ele reforçou ainda que a hipótese de homicídio dependerá dos elementos produzidos durante a investigação.
“Como eu disse: se for detectado que havia algum inimigo íntimo ou pessoal dele ali, e que tudo ocorreu de forma premeditada, a investigação deixará de tratar apenas de omissão de socorro e passará a apurar homicídio.”
Polícia Civil mantém investigação em sigilo
A reportagem procurou a Polícia Civil do Amazonas para saber qual delegacia conduz o caso, se as pessoas que estavam na lancha já prestaram depoimento, qual a versão apresentada por elas, quantos ocupantes havia na embarcação e quais possíveis crimes estão sendo investigados.
Em resposta, a corporação informou apenas que:
“O caso está sob investigação, e mais detalhes não podem ser repassados para não comprometer o andamento das diligências.”
Assim, a Polícia Civil não confirmou se os ocupantes da lancha já foram ouvidos nem informou qual linha investigativa está sendo adotada.
Família evita comentar detalhes da investigação
A morte de Ruan provocou grande comoção entre familiares, amigos e colegas de profissão, que utilizaram as redes sociais para prestar homenagens e cobrar o esclarecimento completo das circunstâncias da tragédia.
Em entrevista, a irmã da vítima, Larissa Silveira Ferreira, contou que Ruan trabalhava em regime de plantões em hospitais de Manaus e raramente saía para se divertir.
Segundo ela, a folga prevista para sábado foi antecipada para sexta-feira. Com isso, ele decidiu participar da festa que antecedeu a ida à Praia da Lua. Larissa afirmou não saber o motivo da mudança da escala.
Questionada sobre os relatos de consumo de bebida alcoólica e sobre a informação de que os ocupantes da lancha disseram não conhecer Ruan, ela preferiu não comentar.
Primo afirma que grupo presenciou o afogamento
O primo da vítima, Renan Rodrigues, afirmou que a principal revolta da família diz respeito à conduta das pessoas que estavam na embarcação.
Segundo ele, onze pessoas teriam presenciado o afogamento sem prestar socorro.
“Essas 11 pessoas que estavam na lancha viram ele se afogando e continuaram bebendo.”
Contexto
Ruan Silveira Ferreira morreu na manhã de sábado (11), durante um passeio à Praia da Lua, em Manaus. A Polícia Civil instaurou investigação para esclarecer as circunstâncias do caso, mas mantém o procedimento sob sigilo. Até o momento, a corporação não informou quais pessoas já foram ouvidas nem quais crimes estão sendo apurados.
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