Coluna do Jota Garcia

Opinião – A mosca azul e a memória curta da política

Por Jota Garcia

Na política, há um personagem silencioso que atravessa gerações, partidos e discursos: a chamada “mosca azul”. Ela não escolhe ideologia nem biografia. Pousa sobre aqueles que, ao experimentar o sabor do poder, passam a acreditar que chegaram ao topo apenas pelo próprio mérito, como se a caminhada tivesse sido solitária e a memória pudesse ser descartada conforme a conveniência do momento.

A história política brasileira está repleta desses casos. A gratidão, quando confrontada com as ambições do presente, costuma ser a primeira vítima. Alianças que pareciam inabaláveis transformam-se em relações descartáveis. Companheiros de ontem tornam-se desconhecidos de hoje. E quem ajudou a construir uma trajetória passa a ser tratado como um detalhe inconveniente.

Foi com esse sentimento que recebemos mais um gesto de distanciamento de um pré-candidato ao Governo do Estado. Alguém cuja caminhada eleitoral, em momentos decisivos, encontrou no Blog do Pávulo espaço, voz e defesa. Não reivindicamos autoria de vitórias — elas pertencem ao eleitor. Mas negar a importância daqueles que ajudaram a construir pontes entre o político e a sociedade é, no mínimo, um exercício de ingratidão.

O Blog do Pávulo nunca vendeu ilusões. Fez jornalismo, abriu espaço para o debate e acreditou em projetos que julgava relevantes para o Amazonas. Em troca, esperava apenas respeito e diálogo. Nada além disso.

Em determinado momento, o editor do Blog do Pávulo entregou ao então aliado um símbolo carregado de significado para milhares de cearenses: o manto sagrado do Ceará Sporting Club, o Vozão. O gesto não era apenas esportivo. Representava confiança, amizade e reconhecimento. Em seguida, pediu apenas uma conversa franca, olho no olho. Não houve diálogo. A distância falou mais alto do que a história construída.

Talvez ali a mosca azul já tivesse inoculado quase todo o seu veneno. Hoje, ao que tudo indica, a transformação parece completa. Quando o poder substitui a humildade, quando o silêncio ocupa o lugar da palavra e quando a conveniência derrota a lealdade, resta evidente que o ego venceu a memória.

Não escrevemos movidos pelo ressentimento. A política é dinâmica, alianças começam e terminam. O que não deveria terminar é o respeito pela própria história. Quem esquece o caminho percorrido corre o risco de perder o rumo da caminhada.

Por isso, fazemos apenas um pedido simbólico: devolva o manto sagrado do Vozão. Não porque o tecido tenha valor material, mas porque os símbolos exigem coerência. Quem deixa para trás os gestos de confiança também deveria devolver os emblemas que eles representavam.

Seguiremos nossa missão. Continuaremos acreditando que o jornalismo existe para fiscalizar, registrar, elogiar quando necessário e criticar quando a consciência exigir. Não somos proprietários da verdade, mas também não seremos reféns do silêncio.

A política passa. Os mandatos terminam. As amizades verdadeiras sobrevivem apenas quando resistem à tentação da mosca azul.

Que Deus proteja a todos nós desse velho inseto da política brasileira. Porque seu veneno não mata o corpo, mas pode destruir aquilo que um homem público tem de mais valioso: a humildade, a memória e a palavra.