
Relatório reservado mapeou atos de um ano do rompimento da barragem, listou organizações e registrou cobranças à Vale e ao poder público
Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), produzido durante o governo Jair Bolsonaro, mostra que a estrutura federal de inteligência monitorou protestos, movimentos sociais, entidades religiosas e demandas de atingidos no contexto dos atos que marcariam um ano da tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais. O documento foi revelado pelo ICL Notícias nesta terça-feira, 22 de abril.
Datado de 17 de janeiro de 2020, o relatório circulou no núcleo central do governo federal. Segundo a reportagem, a Abin compartilhou o material com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e com a Casa Civil da Presidência da República.
Documento foi produzido antes dos atos de um ano da tragédia
O relatório surgiu poucos dias antes das mobilizações previstas para lembrar o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, ocorrido em 25 de janeiro de 2019. A tragédia matou 272 pessoas e causou devastação ambiental e social em Brumadinho e em áreas atingidas pela lama.

De acordo com o texto revelado, a Abin não se limitou a registrar a existência dos atos. Além disso, o órgão reuniu informações sobre o ambiente político local, a situação econômica do município, as críticas à Vale e ao poder público, e ainda anexou listas de entidades e programações de manifestações.
Abin acompanhou atos mesmo sem apontar risco de violência
Logo no início, o documento registra que os eventos seriam realizados para lembrar o desastre ambiental e cobrar respostas do poder público e da mineradora. Ao mesmo tempo, a própria Abin avaliou que a tendência era de manifestações “dentro da normalidade”, sem indicativo de ocorrência grave ou violência.

Ainda assim, o relatório aprofundou o monitoramento. Segundo a reportagem, a agência detalhou atores, pautas e repercussões políticas dos atos, o que indica que o acompanhamento foi além de uma preocupação imediata com segurança pública.
Relatório mapeou movimentos sociais, Igreja e entidades civis
Ao tratar das mobilizações, a Abin separou duas frentes. De um lado, a solenidade oficial com familiares e autoridades. De outro, atos autônomos organizados por movimentos sociais, organizações civis e setores da Igreja, com discurso mais crítico.

É nesse segundo eixo que o documento se aprofunda. Segundo o ICL, a Abin destacou a campanha “Janeiro Marrom”, que reunia dezenas de organizações com o objetivo de lembrar o desastre, denunciar impactos socioambientais e cobrar reparação.
O relatório listou 45 entidades envolvidas. Entre elas, aparecem o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a Frente Brasil Popular, o Comitê Popular dos Atingidos pela Mineração, o Projeto Manuelzão, polos da UFMG e várias organizações ambientais, religiosas e comunitárias.
MST e mobilizações religiosas entraram no radar
O documento também deu destaque ao MST. Segundo o relatório, o movimento organizaria uma caravana com cerca de 350 participantes entre Belo Horizonte e Brumadinho, com marcha, plantio simbólico, ato em memória das vítimas e atividade cultural.

Além disso, a Abin monitorou a “1ª Romaria pela Ecologia Integral”, organizada pela Arquidiocese de Belo Horizonte com apoio da CNBB. Segundo o relatório citado, o evento previa caminhada, missa e lançamento de campanha nacional.
Agência registrou críticas à Vale e ao poder público
O material também sistematizou as principais reivindicações dos atingidos. Entre elas, estavam a continuidade das buscas por desaparecidos, a revisão dos critérios de indenização, a reparação ambiental e a punição dos responsáveis pelo rompimento.
Em um dos trechos destacados pela reportagem, a Abin registra que movimentos sociais apontavam suposto “favorecimento” em acordos firmados com a Vale. Além disso, o documento cita insatisfação com o auxílio emergencial e com os critérios de compensação por danos materiais e morais.
Relatório expôs preocupação com impacto político dos atos
Outro ponto sensível envolve o ambiente político. Segundo o documento, não havia naquele momento registro de críticas diretas ao governo federal. Mesmo assim, a Abin considerou que a presença de autoridades poderia gerar manifestações “principalmente contra a manifestação do governo federal”.

Portanto, o monitoramento também buscava medir desgaste político. A preocupação não se limitava à ordem pública. Além disso, incluía a repercussão social e institucional dos atos em torno de uma das maiores tragédias ambientais do país. Essa leitura decorre do próprio conteúdo descrito na reportagem.
Documento revela alcance do olhar da inteligência estatal
Mesmo sem identificar risco concreto de violência, a Abin produziu um relatório extenso sobre uma rede formada por familiares de vítimas, moradores atingidos, movimentos sociais, organizações religiosas e entidades civis. Além disso, o material reuniu programação de atos, listas de grupos envolvidos e peças de divulgação das mobilizações.
Na prática, o documento expõe como a inteligência estatal acompanhou a resposta social e política à tragédia de Brumadinho. Mais do que um registro burocrático, o relatório aparece como retrato detalhado do cenário local um ano após o rompimento da barragem.
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