Coluna do Jota Garcia

Opinião – Da abordagem à morte: o que o caso em Manaus revela sobre o uso da força policial

Por Jota Garcia

A sequência de episódios envolvendo policiais militares em Manaus revela mais do que casos isolados: aponta para um padrão preocupante de uso excessivo da força, fragilidades nos mecanismos de controle e, sobretudo, uma percepção social de impunidade que retroalimenta novas ocorrências.

No caso mais recente, a entrega dos policiais Belmiro Wellington Costa Xavier e Hudson Marcelo Vilela ocorre sob a pressão de uma decisão judicial que decretou prisão preventiva, respaldada pelo Ministério Público. Esse tipo de medida, embora importante, costuma chegar depois que o dano irreversível já foi causado: a morte de um jovem durante uma abordagem policial — uma situação que, em teoria, deveria prezar pela preservação da vida.

A narrativa institucional frequentemente se ancora na ideia de “confronto” ou “suspeita de criminalidade” para justificar ações letais. No entanto, investigações independentes e análises periciais, quando bem conduzidas, muitas vezes revelam inconsistências nessas versões. O uso de armas não regularizadas — como sugerido no seu relato —, se confirmado, adiciona um elemento ainda mais grave: a possível atuação fora dos protocolos legais e fora do controle formal da corporação.

O paralelo com o caso do ex-sargento Salazar não é irrelevante. Episódios anteriores em que agentes acusados de violência extrema não apenas evitam punições severas, mas conseguem capitalizar politicamente sua imagem, ajudam a construir um imaginário perigoso. Nele, a violência é interpretada por parte do eleitorado como sinônimo de “eficiência” no combate ao crime. Essa lógica distorce o papel das forças de segurança e enfraquece princípios básicos do Estado de Direito, como o devido processo legal e a presunção de inocência.

Quando um agente público acusado de homicídio ganha notoriedade e ascende politicamente, a mensagem simbólica transmitida é ambígua — e, para alguns, até legitimadora de práticas abusivas. Isso não significa que todos os policiais compartilhem dessa visão, mas indica que há incentivos distorcidos em jogo, especialmente em contextos onde a insegurança pública é elevada e a população se sente desprotegida.

Outro ponto crítico é a responsabilização institucional. Prisões preventivas e investigações são passos importantes, mas insuficientes se não houver transparência, celeridade processual e punição proporcional quando comprovadas irregularidades. Além disso, corregedorias independentes, uso de câmeras corporais e protocolos claros de abordagem são medidas que têm se mostrado eficazes em reduzir letalidade policial em diferentes regiões.

A pergunta “até quando?” não tem uma resposta simples, mas aponta para a necessidade de mudanças estruturais. Isso inclui desde formação policial mais rigorosa e contínua, passando por supervisão efetiva, até uma revisão cultural mais ampla sobre o papel da polícia na sociedade.

Sem isso, o risco é que casos como o de Manaus deixem de causar indignação e passem a ser vistos como parte de uma rotina trágica — um cenário em que a exceção se torna regra e a justiça

, seletiva.