Coluna do Jota Garcia

DRCO-AM não faz o dever de casa, enquanto outras Polícias Civis ocupam o espaço

Manaus  – AM: Mais uma vez, o Amazonas aparece no noticiário nacional sobre combate ao crime organizado não como protagonista, mas como coadjuvante.

A Operação Rota do Norte, deflagrada nesta terça-feira (16), resultou na prisão de cinco integrantes ligados à facção venezuelana Tren de Aragua, organização criminosa que se transformou em uma das maiores ameaças transnacionais das Américas. Três prisões ocorreram em Manaus e duas em Tabatinga. Entretanto, o comando da investigação não partiu da Polícia Civil do Amazonas. A liderança coube à Polícia Civil de Roraima.

O fato expõe uma realidade desconfortável: enquanto outros estados produzem inteligência, desenvolvem investigações e coordenam operações complexas, o Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) do Amazonas segue aparecendo como força auxiliar em ações que envolvem criminosos atuando dentro do próprio território amazonense.

O crime organizado não conhece fronteiras. O DRCO parece conhecer.

A expansão do Tren de Aragua pelo Norte do Brasil não é novidade.

Há anos autoridades federais, organismos internacionais e serviços de inteligência alertam para a infiltração da facção venezuelana nas regiões de fronteira. Tabatinga, por sua localização estratégica na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, sempre esteve no radar das organizações criminosas.

O Amazonas possui a maior fronteira internacional do país, milhares de quilômetros de rios utilizados como rotas do narcotráfico e uma posição geográfica privilegiada para o trânsito de drogas, armas, dinheiro e pessoas.

Diante desse cenário, seria razoável esperar que o DRCO estivesse liderando investigações estruturadas contra organizações transnacionais.

Mas o que se vê repetidamente é o contrário.

Quando surgem operações de grande porte envolvendo facções nacionais ou estrangeiras, o protagonismo costuma vir da Polícia Federal, das forças de segurança de outros estados ou de organismos de inteligência externos. O Amazonas entra como apoio logístico.

A pergunta inevitável

Se os integrantes do Tren de Aragua estavam atuando em Manaus e Tabatinga, quem descobriu?

Quem rastreou movimentações financeiras?

Quem produziu os relatórios de inteligência?

Quem identificou a estrutura operacional?

A resposta oficial aponta para Roraima.

Isso não diminui o mérito dos policiais amazonenses que participaram da operação. O problema não está na ponta da execução. Está na capacidade institucional de produzir investigações estratégicas próprias.

O DRCO foi criado justamente para enfrentar organizações criminosas complexas. Seu papel não é apenas cumprir mandados expedidos a partir de investigações alheias. Sua missão é gerar inteligência, antecipar movimentos criminosos e desarticular estruturas antes que elas se consolidem.

Um departamento caro para resultados discretos

O combate ao crime organizado exige investimentos pesados.

Viaturas, sistemas de monitoramento, equipamentos tecnológicos, acesso a bancos de dados, operações de inteligência e equipes especializadas consomem recursos públicos significativos.

A sociedade amazonense tem o direito de questionar se os resultados produzidos estão compatíveis com os investimentos realizados.

Enquanto isso, facções brasileiras ampliam seu poder dentro do estado, organizações estrangeiras encontram espaço para operar e as grandes operações continuam sendo conduzidas por forças externas.

A impressão que fica é a de que o Amazonas possui uma das regiões mais estratégicas para o crime organizado na América do Sul, mas não exerce liderança proporcional no enfrentamento desse fenômeno.

O risco da dependência investigativa

Quando um estado depende constantemente da inteligência produzida por outros órgãos, surge um problema estrutural.

A segurança pública passa a reagir aos fatos em vez de antecipá-los.

Investigações chegam de fora.

Alertas chegam de fora.

Operações são planejadas fora.

E o estado, frequentemente, limita-se a cumprir uma função operacional.

Num ambiente criminal cada vez mais sofisticado, isso representa uma vulnerabilidade perigosa.

O crime organizado moderno movimenta milhões de reais, utiliza tecnologia avançada, opera em vários países simultaneamente e explora justamente as falhas de coordenação entre instituições.

Se as facções atuam dentro do Amazonas, o Amazonas deveria ser uma referência nacional em inteligência contra essas organizações.

O mérito é de quem investigou

A Operação Rota do Norte representa um avanço importante no combate ao Tren de Aragua no Brasil e merece reconhecimento.

Mas também serve como alerta.

O sucesso da ação evidencia a capacidade investigativa da Polícia Civil de Roraima e, ao mesmo tempo, levanta questionamentos sobre o papel desempenhado pelo DRCO-AM diante da crescente presença de organizações criminosas internacionais na região.

O Amazonas não pode continuar sendo apenas cenário das operações.

Precisa voltar a ser protagonista.

Porque, quando outras polícias fazem o dever de casa e o Amazonas apenas acompanha, quem ganha tempo para se reorganizar são justamente as facções criminosas.