Coluna do Jota Garcia

Opinião – Eventual 2° turno: estabilidade de Omar Aziz e a urgência política de Roberto Cidade

Por Jota Garcia

As eleições para o Governo do Amazonas começam a desenhar um cenário que, neste momento, favorece amplamente o senador Omar Aziz. Os levantamentos divulgados por diferentes institutos apontam uma liderança consistente do parlamentar, revelando não apenas vantagem numérica, mas também uma percepção consolidada de competitividade perante o eleitorado amazonense.

Contudo, liderança em pesquisas não significa ausência de desafios. Omar Aziz chega ao processo eleitoral carregando atributos e vulnerabilidades que precisarão ser administrados com precisão cirúrgica ao longo da campanha.

Seu principal ativo é o recall político. Trata-se de uma figura amplamente conhecida, com trajetória consolidada, trânsito entre prefeitos, lideranças municipais e setores da classe política. Em um estado marcado pela forte influência das estruturas locais de poder, essa capacidade de diálogo com o interior continua sendo uma vantagem estratégica.

Por outro lado, sua candidatura parece enfrentar um fenômeno comum aos políticos de alta exposição: a dificuldade de ampliar significativamente sua base de apoio além do núcleo já consolidado. Os índices de rejeição, embora ainda administráveis, representam um obstáculo para o crescimento eleitoral. A missão de Omar não é se tornar conhecido; é convencer eleitores que já o conhecem e que ainda resistem ao seu retorno ao comando do Executivo estadual.

Nesse contexto, a associação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a ocupar papel central na estratégia da campanha. O desafio será transformar essa proximidade em ativo eleitoral num estado onde a política nacional frequentemente produz efeitos contraditórios. Em determinados segmentos, a ligação com Lula poderá representar força. Em outros, exigirá um trabalho intenso de comunicação para evitar desgaste.

Além disso, Omar Aziz terá de conviver com o peso de episódios controversos de sua trajetória administrativa. Embora seus aliados enfatizem a experiência de governo e a capacidade de articulação institucional, adversários certamente resgatarão fatos relacionados ao período em que esteve à frente do Executivo estadual, incluindo investigações e operações que marcaram o debate político da época. A disputa pela narrativa sobre seu legado será uma das batalhas centrais da campanha.

Enquanto isso, Roberto Cidade enfrenta uma realidade muito mais complexa.

Cidade é apontado como nome do grupo político liderado pelo ex- governador Wilson Lima, Cidade ainda não conseguiu transformar sua posição institucional em densidade eleitoral. O problema não está apenas nos números das pesquisas, mas na ausência de uma identidade política claramente definida perante o eleitorado.

Até o momento, sua trajetória eleitoral reproduz características observadas na própria ascensão de Wilson Lima em determinados momentos: baixa exposição estratégica, comunicação cautelosa e uma construção de candidatura que ainda não encontrou narrativa capaz de mobilizar amplamente a população.

O risco dessa estratégia é evidente. Diferentemente de campanhas passadas, o tempo político parece correr contra Roberto Cidade. A indefinição prolongada pode consolidar a percepção de que sua candidatura depende mais das circunstâncias do que de uma liderança efetivamente construída.

Há uma diferença importante entre ser conhecido nos bastidores do poder e ser reconhecido pelo eleitor como alternativa viável de governo. É justamente essa transição que Cidade precisa realizar nos próximos meses.

Para isso, será necessário muito mais do que obras públicas ou apoio institucional. Campanhas modernas exigem posicionamento, discurso, identidade e capacidade de ocupar espaços no debate público. O eleitor amazonense precisa compreender não apenas quem é Roberto Cidade, mas principalmente por que ele deseja governar o estado e o que pretende fazer de diferente.

A situação torna-se ainda mais delicada porque a polarização tende a favorecer quem já está consolidado. Quanto mais a eleição avançar sem que Cidade apresente um projeto político claramente identificado, maior será o risco de ver seu espaço eleitoral ser absorvido pelos adversários.

Hoje, olhando exclusivamente para o quadro disponível, Omar Aziz aparece como favorito em um eventual segundo turno. Sua experiência, sua rede de alianças e sua vantagem nas pesquisas lhe conferem posição confortável na largada.

Mas eleições não são decididas na largada.

Omar precisa evitar acomodação e encontrar caminhos para expandir seu teto eleitoral. Roberto Cidade, por sua vez, necessita de uma inflexão estratégica urgente. Seu desafio não é apenas crescer; é provar que existe politicamente para além das estruturas institucionais que atualmente o sustentam.

No Amazonas, a disputa ainda está longe de seu capítulo final. Entretanto, o relógio eleitoral corre em velocidades diferentes para cada candidato. Omar Aziz administra uma vantagem. Roberto Cidade luta contra o tempo.

E, em política, o tempo costuma ser o adversário mais implacável de todos.