Documentos revelados pelo Intercept indicam que ex-deputado assumiu papel de produtor-executivo em fase inicial do projeto; depois, Eduardo e Flávio disseram que a estrutura mudou com a entrada de investidores
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) assinou um contrato que o colocava como produtor-executivo do filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Depois, porém, ele afirmou que os planos mudaram ao longo do projeto e que deixou essa função quando investidores passaram a financiar a produção.
A informação surgiu em reportagem do The Intercept Brasil, que publicou documentos nos quais Eduardo e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) aparecem como produtores-executivos ao lado da produtora Go Up Entertainment, sediada nos Estados Unidos.

Contrato previa atuação direta no orçamento e no financiamento
De acordo com a reportagem, o contrato foi firmado em novembro de 2023 e recebeu assinatura digital de Eduardo em 30 de janeiro de 2024.

Segundo o Intercept, o cargo de produtor-executivo dava poder para atuar diretamente no controle do orçamento e na gestão financeira do projeto audiovisual.
Além disso, os documentos atribuíram aos produtores-executivos responsabilidade sobre decisões estratégicas de financiamento, preparação de documentação para investidores e busca por fontes de recursos.

Naquele momento, o filme ainda usava o título “O Capitão do Povo”. Mais tarde, a produção passou a se chamar “Dark Horse”.
Intercept cita aditivo que aponta Eduardo como financiador
A reportagem também menciona uma minuta de aditivo contratual, datada de fevereiro de 2024, que cita Eduardo Bolsonaro como “financiador” da produção.
Intercept, vocês são VAGABUNDOS!
NÃO EXISTE DINHEIRO DO VORCARO PARA MIM, LARGUEM DE SER MENTIROSOS!E ainda botam no título da matéria: “o homem da grana”. Vocês são a escória do jornalismo.
Assistam, compartilhem👇 pic.twitter.com/op1w21y5Qp
— Eduardo Bolsonaro🇧🇷 (@BolsonaroSP) May 15, 2026
Ainda assim, o próprio Intercept ressalva que não confirmou a assinatura definitiva desse aditivo.
Eduardo admite contrato, mas diz que cenário mudou
Em vídeo publicado nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro reconheceu que assinou um contrato com a produtora para viabilizar a contratação do diretor Cyrus Nowrasteh. Além disso, ele admitiu que recebeu o título de diretor-executivo nessa fase.
Segundo Eduardo, a produtora pediu que ele colocasse US$ 50 mil como garantia para manter o diretor no projeto. Em troca, recebeu formalmente essa função.
“A produtora, na época, disse basicamente o seguinte: Eduardo, bota esse dinheiro aqui. Como o risco é 100% seu, eu vou te garantir ser diretor-executivo do filme”, afirmou.
Ex-deputado diz que saiu da função após entrada de investidores
Ainda de acordo com Eduardo, o modelo financeiro do projeto mudou antes do fim do contrato. Depois disso, grandes investidores entraram na produção e o filme passou a operar dentro de uma nova estrutura, ligada a um fundo de investimento.

Com essa mudança, segundo ele, sua participação executiva terminou. A partir daí, ele passou a figurar apenas como alguém que assinou a cessão de direitos autorais.
“Quando essa estrutura passou a ser de fundo de investimento, ter outra estrutura, eu saí dessa posição de diretor-executivo e passei a ser somente uma pessoa que assinou sua cessão de direitos autorais”, disse.
Além disso, Eduardo negou ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro ou do fundo criado nos Estados Unidos. Segundo ele, a produtora devolveu o valor que havia sido colocado como garantia.
“Quem diz que recebi dinheiro de Daniel Vorcaro ou do fundo criado nos Estados Unidos está mentindo. Eu recebi meu dinheiro de volta da produtora, o valor que era meu e que nem foi corrigido. Esse dinheiro foi o que permitiu confeccionar o filme”, declarou.
Flávio diz que documento se refere a etapa antiga do projeto
Questionado sobre o caso, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que o documento citado trata de uma fase anterior do filme.
Segundo ele, o contrato foi formalizado com a produtora antes da criação da estrutura financeira montada nos Estados Unidos.
“Esse é um contrato antigo, formalizado com a produtora muito antes de haver toda essa estrutura lá nos Estados Unidos. Foi ali a plataforma legal para o Eduardo colocar dinheiro e segurar o roteirista, o Cyrus”, declarou à CNN.
Caso se cruza com revelações sobre Vorcaro
Na quarta-feira, o Intercept publicou outra reportagem afirmando que Flávio Bolsonaro articulou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master, o repasse de R$ 134 milhões para financiar o filme Dark Horse.
Segundo a publicação, R$ 61 milhões já teriam sido pagos.
Além disso, um áudio de setembro de 2025 mostra Flávio cobrando mais recursos do banqueiro. O senador confirmou que pediu dinheiro a Vorcaro para o filme, mas negou ter recebido vantagens ou oferecido contrapartidas.
Flávio admite chance de novos vazamentos
Em entrevista à CNN Brasil, Flávio afirmou que novas conversas ou registros de encontros com Vorcaro ainda podem aparecer, mas disse que todo o contato tratou exclusivamente do filme.
“Pode vazar um videozinho mostrando o estúdio, que eu possa ter enviado para ele, ou algum encontro que eu possa ter tido com ele. Foi tudo para tratar exclusivamente do filme. Não vai ter surpresinha. Não virão coisas novas”, afirmou.
Segundo o senador, Vorcaro investiu pouco mais de US$ 12 milhões no projeto, o equivalente a cerca de R$ 60 milhões na cotação atual.
“O orçamento previsto era de US$ 24 milhões, mas não houve captação disso tudo. O que foi investido por ele nesse fundo privado, 100% comprovado, foi uma quantia um pouquinho superior a US$ 12 milhões e alguma coisa de dólares”, declarou.
Mensagens ligam Eduardo à orientação sobre envio de dinheiro
Também nesta sexta-feira, o Intercept publicou mensagens em que Eduardo Bolsonaro aparece orientando o empresário Thiago Miranda, apontado como intermediário entre Vorcaro e a família Bolsonaro, sobre a melhor forma de enviar recursos aos Estados Unidos.

Segundo a reportagem, em uma das mensagens Eduardo teria dito: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo”.
Em outro trecho, ele sugere: “Enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual”.

PF apura se dinheiro do filme bancou despesas de Eduardo nos EUA
As mensagens indicam, segundo o texto-base, que parte dos valores negociados por Flávio com Vorcaro foi transferida ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo.
Entre os nomes citados está Paulo Calixto, advogado responsável pelo processo imigratório de Eduardo nos EUA.
Além disso, a Polícia Federal apura se parte do dinheiro destinado ao filme custeou despesas de Eduardo no país, para onde ele se mudou em fevereiro de 2025, alegando perseguição do ministro do STF Alexandre de Moraes.
Mario Frias nega que Eduardo tenha exercido essa função
Em declaração ao Intercept, Mario Frias afirmou que “Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo” do filme.
Ainda assim, essa fala entra em choque com os documentos citados pela reportagem, que apontam o nome de Eduardo nesse papel em pelo menos uma fase contratual do projeto.
Produção segue tratada como superprodução internacional
Segundo documentos obtidos pelo site, o orçamento total do filme está estimado entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões.

Esse valor, por sua vez, combina com o montante que Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro: US$ 24 milhões.
Na prática, o caso amplia a pressão sobre a produção de Dark Horse e reforça o peso político e financeiro que o filme passou a carregar no centro da disputa presidencial de 2026.
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