
José Mucio defendeu mais investimentos militares na Amazônia e instalação permanente de navios e estruturas de defesa na região
Manaus – O ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, afirmou nesta segunda-feira (29), em Manaus, que a região Norte é “absolutamente vulnerável” no que diz respeito à defesa das fronteiras brasileiras.
A declaração ocorreu durante a inauguração do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (Ipeam).
Segundo o ministro, o Brasil precisa ampliar os investimentos militares na Amazônia, criar bases na região e manter estruturas permanentes de defesa no território amazônico.
“Temos quase 17 mil quilômetros de fronteira e 8.500 quilômetros de mar, nós somos absolutamente vulneráveis. E tem mais, o Norte é absolutamente vulnerável”, afirmou.
Operação em Roraima expôs demora de navios e blindados
Durante o discurso, José Mucio citou um exercício militar realizado em Roraima no ano passado.
Segundo ele, a Operação Atlas simulou a invasão do país e expôs dificuldades logísticas para resposta rápida na Amazônia.
“Nós fizemos um exercício aqui em Roraima, o ano passado, a operação Atlas, simulando o país ser invadido, os navios do Rio de Janeiro demoraram 20 dias para chegar lá, e os blindados do Exército demoraram 55, imagina se nós sofrêssemos um ataque”, disse.
Em seguida, o ministro defendeu a instalação de bases e esquadras permanentes na região Norte.
“Precisamos investir aqui, fazer bases aqui, deixar esquadras permanentes, os navios da defesa não precisam vir para aqui, precisam ficar aqui”, completou.
Ministro defende previsibilidade orçamentária
José Mucio afirmou que ficou “bastante feliz” com a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que vai incluir a Defesa Nacional no plano de governo de sua candidatura à reeleição.
Segundo o ministro, o Brasil investe pouco na área quando comparado a países vizinhos.
“O mundo está todo se armando e nós não. O Brasil talvez seja um dos países que menos investe em defesa. Nós investimos 1% do PIB. Colômbia aqui pertinho investe 3,4%. Eu estive no Chile semana passada e eles investem 2,8%. A defesa não é para a gente invadir ninguém, é para que ninguém nos invada”, afirmou.
Mucio também citou a dificuldade de priorizar recursos para equipamentos militares em um país com fortes demandas sociais.
Fragata de R$ 3 bilhões
O ministro relembrou um discurso feito na sexta-feira, em Itajaí, durante a inauguração de uma fragata pelo presidente Lula.
Segundo ele, a embarcação custou R$ 3 bilhões.
“Eu disse isso num discurso na sexta-feira em Itajaí, o presidente da República inaugurando uma fragata que custou 3 bilhões de reais. Precisamos de quantas? 20. Como com o presidente da República, colocar 3 bilhões de reais numa fragata, quando 3 bilhões de reais resolveria muitos problemas, é muito difícil”, pontuou.
Para Mucio, a saída passa por garantir previsibilidade orçamentária para a Defesa.
“Os países que vão bem têm previsibilidade. O dinheiro é dividido, mas o da defesa, que não pertence a lado político, defende a sociedade, a soberania, o país, tem que ser um dinheiro preservado para que aconteça sempre”, sustentou.
Defesa disputa espaço com áreas sociais
José Mucio voltou a afirmar que a falta de previsibilidade orçamentária representa um dos principais entraves para a Defesa Nacional.
“A gente precisa ter uma coisa chamada previsibilidade orçamentária. É muito difícil o presidente da República, num país onde precisa dinheiro pra educação, dinheiro pra saúde, pra habitação popular, pra alimento, colocar dinheiro em defesa”, disse.
Apesar disso, o ministro sustentou que a proteção do território, da soberania e da sociedade não deve depender de disputas políticas ou de decisões pontuais.
Mucio segue de Manaus para Caracas
O ministro informou ainda que, por determinação do presidente Lula, seguirá de Manaus para Caracas, na Venezuela.
A viagem tem como objetivo supervisionar as ações brasileiras de ajuda humanitária ao país vizinho.
“Ele soube que eu viria aqui e disse: ‘aproveite que você vai lá falar com o Eduardo [Braga] e vá para Caracas’. Eu estou saindo daqui para Caracas”, relatou.
A Venezuela enfrenta uma crise humanitária após os terremotos que atingiram o país e provocaram milhares de vítimas.
Inauguração do Ipeam
José Mucio veio a Manaus para participar da inauguração do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia.
O Ipeam terá duas vertentes principais.
A primeira envolve formação de recursos humanos qualificados.
A segunda busca desenvolver soluções tecnológicas aplicáveis à proteção, à defesa e ao desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal.
Segundo o ministro, o instituto também integra uma estratégia de descentralização de oportunidades no Brasil.
“Isso é um trabalho da descentralização que nós estamos defendendo das oportunidades do Brasil. É para que os jovens cientistas do Amazonas não sonhem ir para o sul e fiquem lá. Nós vamos poder ter os nossos jovens cientistas do Amazonas ficando aqui, amadurecendo aqui, constituindo suas famílias aqui e servindo ao Brasil a partir do Amazonas. Assim como vocês mandam crédito de carbono para o Brasil inteiro, vocês vão mandar serviços para o Brasil inteiro sem que precisem sair daqui”, disse.
Pesquisa, inovação e defesa
A primeira vertente do Ipeam será voltada à pesquisa, ao desenvolvimento e à inovação.
O foco inicial será o programa de pós-graduação em engenharia de defesa do Instituto Militar de Engenharia (IME).
As atividades incluirão cursos de mestrado, doutorado e estágio de pós-doutorado em áreas estratégicas.
Entre elas estão inteligência artificial, biotecnologias, transição energética, tecnologias quânticas e cibernética.
Os cursos serão desenvolvidos por meio de processos híbridos de ensino e aprendizagem.
A proposta é integrar academicamente Manaus e o IME, no Rio de Janeiro.
Extensão para comunidades isoladas
A outra vertente do Ipeam envolve atividades de extensão do Instituto Militar de Engenharia.
Entre as ações previstas estão aulas de reforço para alunos do ensino fundamental e capacitação de professores do ensino básico em comunidades isoladas.
O instituto também deve desenvolver projetos de iniciação científica voltados a estudantes e professores da região.
Segundo Mucio, o Ipeam não deve atender apenas moradores do Amazonas, mas jovens cientistas de todo o Norte.
“Evidentemente que a gente não pode sonhar que um instituto desse seja só para quem mora no estado do Amazonas. Isso aqui é uma coisa para os jovens cientistas do norte do Brasil. Estão vindo pessoas do Pará, de Roraima, de todos os estados onde há pessoas que precisa estudar aqui. Vai aumentar o desenvolvimento dessa região. Então a gente tem certeza que isso vai dar certo”, afirmou.
Instituto funcionará no Censipam
O Ipeam foi instalado no Centro Regional de Manaus do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
O Censipam é vinculado ao Ministério da Defesa.
O instituto manterá cooperação estreita com o órgão no desenvolvimento de pesquisas, compartilhamento de infraestrutura, intercâmbio de conhecimentos técnico-científicos e criação de tecnologias.
As iniciativas serão voltadas ao monitoramento ambiental, territorial e de fronteiras da Amazônia.
Parcerias com universidades e órgãos de pesquisa
O Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia contará com colaboração de instituições da região.
Entre elas estão a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Instituto Federal do Amazonas (Ifam).
O projeto também terá apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
Essas instituições deverão viabilizar bolsas de estudo, projetos de pesquisa, atividades de extensão e mobilidade acadêmica.
Amazônia no centro da Defesa
A fala de José Mucio reforça a preocupação do Ministério da Defesa com a presença permanente do Estado brasileiro na Amazônia.
Ao citar a vulnerabilidade do Norte, o ministro defendeu uma mudança de lógica.
Para ele, a defesa da região não pode depender do deslocamento tardio de navios, blindados e estruturas militares de outras partes do país.
A instalação do Ipeam, segundo o governo, busca unir pesquisa, tecnologia, formação científica e estratégia militar em uma região considerada essencial para a soberania nacional.
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