Por Jota Garcia
A sessão extraordinária da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) desta quarta-feira, 1º de julho, escancarou mais uma vez o que a população amazonense já sabe de cor: muitos nomes que ocupam cadeiras no parlamento estadual trocam de discurso conforme a conveniência do momento — e a deputada estadual Alessandra Campêlo (PSD) é o exemplo mais recente dessa prática que cansou o eleitor.
Na ocasião, a parlamentar, que exerce o cargo de secretária da Mesa Diretora da Casa, se recusou publicamente a assinar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata do Fundo de Apoio às Micro e Pequenas Empresas e ao Desenvolvimento Social do Estado do Amazonas (FMPES). Em suas declarações, ela criticou a forma apressada com que a sessão foi convocada e justificou a negativa alegando falta de debate adequado sobre a matéria.
O detalhe que não pode ser ignorado, porém, está no próprio histórico da deputada: em 2019, ela não apenas defendeu como votou favoravelmente à liberação de recursos exatamente do mesmo FMPES para cobrir despesas correntes do Estado — manobra que, na prática, desvia verbas destinadas a pequenos negócios, assistência social e projetos que atendem diretamente à população mais vulnerável para tapar buracos na gestão pública.
A mudança de posição soa ainda mais estranha quando se olha para o calendário eleitoral. A poucos meses da disputa que definirá os rumos do governo estadual e da própria Aleam, não é difícil levantar a pergunta que não quer calar: estaria Alessandra Campêlo agora cobrando a fatura de compromissos firmados em campanhas passadas, ou apenas ajustando seu discurso para não desagradar grupos que pretende atrair para o seu palanque?
Se em 2019 o uso dos recursos do fundo para despesas correntes era uma medida necessária ou aceitável, como sugeriu seu voto à época, por que hoje a mesma prática — ou a proposta que regulamenta suas regras — se tornou inaceitável e merecedora de recusa formal? A explicação apresentada sobre a convocação da sessão não convence: a parlamentar integra a Mesa Diretora, instância responsável por organizar os trabalhos legislativos, e tem acesso pleno aos ritos e prazos das matérias. Dificilmente seria pega de surpresa.
Esse tipo de comportamento não é exceção na política amazonense. Repete-se a cada ciclo: discursos inflados em defesa dos mais pobres, dos pequenos empreendedores e do desenvolvimento social na época da campanha, e atitudes que beneficiam apenas interesses de grupos fechados logo após a posse. O FMPES, que deveria ser uma ferramenta estratégica para fortalecer a economia local e reduzir desigualdades, vira moeda de troca — ora liberado para cobrir gastos do governo, ora barrado conforme a conveniência de quem tem poder de voto.
A população do Amazonas já deu mostras de que não aceita mais essa dança dos interesses. Cansou de ver nomes que fazem parte da chamada “elite política” do estado, que há décadas alternam posições conforme o vento sopra, sem jamais apresentar resultados concretos para quem vive da economia informal, das microempresas ou depende de políticas públicas de assistência. O fundo existe justamente para atender a esses grupos — e não para servir de reserva de caixa para ajustes contábeis ou para ganhar pontos políticos.
Chegou a hora de deixar de lado a velha política de compromissos pessoais e reviravoltas de discurso. O eleitor amazonense está atento: quem vota de um lado hoje e do outro amanhã, invocando justificativas que não resistem à análise do próprio histórico, não merece continuar contando com a confiança da sociedade. A coerência não é um detalhe — é o mínimo que se espera de quem pede o voto para representar o povo. E o povo já sabe: chegou a hora de virar a página.






