Relatório aponta uso de planos ambientais como fachada para lavra em área tombada e suspeitas de fraudes na Mina Granja Corumi
Belo Horizonte – A Polícia Federal (PF) indiciou 17 pessoas na Operação Parcours por suspeita de integrar uma estrutura criminosa responsável pela exploração ilegal de minério de ferro na Mina Granja Corumi, na Serra do Curral, em Belo Horizonte.
Entre os indiciados estão os empresários Lucas Kallas e Alan Cavalcante do Nascimento.
O inquérito é fruto da Operação Parcours, que tem conexão com a Operação Rejeito. Em outro relatório, a PF indiciou 34 pessoas. Os dois relatórios foram concluídos nesta semana, e o portal O Fator teve acesso aos documentos.
Segundo a investigação, o grupo teria usado planos de recuperação ambiental e planos de fechamento de mina como fachada para realizar lavra em área tombada e protegida.
PF aponta núcleos empresarial, técnico, financeiro e de captura institucional
Além de Lucas Kallas e Alan Cavalcante, a lista de indiciados inclui o advogado Luís Fernando Franceschini da Rosa, o dirigente patronal Bruno Luciano Henriques e técnicos como Marco Túlio Naves de Carvalho e Claudinei Oliveira Cruz.
A Polícia Federal afirma que os investigados atuavam em núcleos ligados à engrenagem minerária.
Segundo o relatório, a estrutura se dividia em núcleo empresarial, núcleo técnico, núcleo financeiro e núcleo de captura institucional.
O inquérito apura a exploração de minério de ferro pertencente à União na Mina Granja Corumi, no bairro Jardim Taquaril, em Belo Horizonte.
A PF afirma que a lavra ocorria sem autorização da Agência Nacional de Mineração (ANM) e sem licenças ambientais válidas.
Apuração começou após requisição do Ministério Público
A investigação começou a partir de uma requisição do Ministério Público, em procedimento civil que apurava extração irregular em área tombada.
Depois disso, a PF passou a identificar, em tese, crimes de usurpação de bens da União, extração mineral sem título, dano a área especialmente protegida, degradação de bem tombado, organização criminosa, corrupção, lavagem de capitais e fraude processual.
O relatório sustenta que os planos ambientais apresentados ao poder público teriam servido para dar aparência de legalidade à retirada de minério.
Conexão com a Operação Rejeito
Desde o início da apuração, a Polícia Federal registrou que o caso não se limita à Mina Granja Corumi.
Para os investigadores, a Parcours se insere em um contexto probatório mais amplo, conectado à Operação Rejeito.
A Rejeito foi deflagrada em setembro de 2025 para apurar crimes ambientais, organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro relacionados a empreendimentos minerários em áreas protegidas.
A operação se baseou em provas compartilhadas da Operação Poeira Vermelha.
Segundo a PF, a atuação de Alan Cavalcante do Nascimento e da Fleurs Global Mineração no beneficiamento e no escoamento do minério da Mina Corumi reforçou a conexão entre Parcours e Rejeito.
Com isso, os investigadores passaram a compartilhar provas e a fazer uma leitura coordenada das estruturas empresariais e dos fluxos de minério.
Lista dos 17 indiciados
A seguir, a lista dos indiciados na Operação Parcours, com as condutas individualizadas registradas no relatório da Polícia Federal.
Luís Fernando Franceschini da Rosa
A PF aponta Luís Fernando Franceschini da Rosa como principal gestor e controlador do grupo econômico formado por EMPABRA, Green Metals e Fides.
Segundo o relatório, ele foi indiciado por suspeita de usurpação de matéria-prima da União, lavra sem autorização, crimes ambientais, falsidade ideológica ambiental, corrupção ativa, fraude processual, organização criminosa e lavagem de capitais.
Lucas Prado Kallas
Lucas Prado Kallas aparece no relatório como empresário e gestor operacional da mina entre 2014 e 2018.
A PF aponta suspeitas de usurpação de matéria-prima da União, mineração ilegal, crimes ambientais, associação criminosa, lavagem de dinheiro e indícios de corrupção ativa ou tráfico de influência perante órgãos ambientais.
Alan Cavalcante do Nascimento
Alan Cavalcante do Nascimento é apontado como responsável pela Fleurs Global.
Segundo a investigação, ele teria assumido a cogestão informal da exploração da Mina Corumi a partir de 2019.
A PF atribui a ele suspeitas de usurpação de matéria-prima, extração e transporte sem licença, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
Bruno Luciano Henriques
Bruno Luciano Henriques é descrito como sócio-investidor e beneficiário econômico ligado à Green Metals e à Aroeira.
Ele foi indiciado por suspeita de usurpação mineral, crimes ambientais, associação criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa.
Nilo Antonio Soares Norden
Nilo Antonio Soares Norden aparece no relatório como diretor de logística e operador operacional.
Segundo a PF, ele teria atuado em usurpação mineral, crimes ambientais, associação criminosa e lavagem de dinheiro vinculada à comercialização do minério.
Ana Laura Braga de Carvalho
Ana Laura Braga de Carvalho é apontada como coordenadora jurídica e diretora institucional do grupo.
A PF atribui a ela suspeitas de associação criminosa, falsidade ideológica ambiental e participação em estratégias para manter a lavra sob aparência de recuperação ambiental.
Kellen Roberta Rocha da Silva
Kellen Roberta Rocha da Silva aparece como gerente administrativa e diretora financeira.
Segundo o relatório, ela foi indiciada por suspeita de associação criminosa, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, fraude processual e concorrência para usurpação mineral por meio da gestão documental e financeira.
Marco Túlio Naves de Carvalho
Marco Túlio Naves de Carvalho é geólogo e gerente operacional.
A PF o acusa de manipular dados técnicos para ocultar a lavra in situ.
Segundo o relatório, ele foi indiciado por suspeita de falsidade ideológica ambiental, usurpação mineral, crimes ambientais, associação criminosa e fraude processual.
Rômulo Gabriel Araújo Dias
Rômulo Gabriel Araújo Dias é engenheiro responsável pelas operações de campo.
A Polícia Federal atribui a ele suspeitas de usurpação mineral, crimes ambientais, associação criminosa, falsidade ideológica ambiental e fraude processual por meio de relatórios operacionais considerados enganosos.
Mauri Lopes Ferreira
Mauri Lopes Ferreira é geólogo consultor contratado para emitir laudos.
Segundo a PF, ele foi indiciado por suspeita de falsidade ideológica ambiental e participação em fraude processual.
O relatório afirma que ele teria chancelado manifestações técnicas usadas para sustentar narrativas de emergência inexistentes.
Leandro César Ferreira de Carvalho
Leandro César Ferreira de Carvalho é ex-gerente regional da ANM em Minas Gerais.
A PF atribui a ele suspeitas de corrupção passiva, fraude processual, associação criminosa, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e facilitação de usurpação mineral.
Claudinei Oliveira Cruz
Claudinei Oliveira Cruz é servidor da ANM.
Segundo a Polícia Federal, ele foi indiciado por suspeita de corrupção passiva, associação criminosa, falsidade ideológica ambiental, fraude processual e lavagem de dinheiro.
O relatório afirma que ele teria facilitado a exploração irregular por meio de atos regulatórios dissonantes da realidade.
Mauro Henrique Moreira Sousa
Mauro Henrique Moreira Sousa é ex-diretor-geral da ANM.
A PF atribui a ele suspeitas de advocacia administrativa e associação criminosa.
Segundo o relatório, o indiciamento decorre da manutenção de canal pessoal e privilegiado de interlocução com os regulados.
Heleno Maia Santos Marques do Nascimento
Heleno Maia Santos Marques do Nascimento é conselheiro ambiental do COPAM e do CBH Paraopeba.
Segundo a PF, ele foi indiciado por suspeita de corrupção passiva, tráfico de influência, advocacia administrativa e associação criminosa.
O relatório afirma que ele teria atuado em favor dos interesses da EMPABRA perante órgãos ambientais em troca de vantagens indevidas.
Níveo Tadeu Lasmar Pereira
Níveo Tadeu Lasmar Pereira é geólogo e consultor.
A Polícia Federal afirma que ele atuava como intermediário remunerado perante servidores da ANM.
Ele foi indiciado por suspeita de corrupção ativa, intermediação de influência, associação criminosa, falsidade ideológica e fraude processual.
Janaísa Dias Mendes
Janaísa Dias Mendes é esposa de Leandro César.
Segundo a PF, ela foi indiciada por suspeita de lavagem de dinheiro e associação criminosa.
O relatório aponta que ela teria usado contas bancárias para ocultar recursos incompatíveis com sua renda declarada.
Kelly Cristina Bonifacio Oliveira Cruz
Kelly Cristina Bonifacio Oliveira Cruz é esposa de Claudinei Oliveira Cruz.
A PF atribui a ela suspeitas de lavagem de dinheiro e associação criminosa.
Segundo o relatório, ela teria atuado na ocultação e dissimulação de vantagens indevidas recebidas pelo marido.
Caso segue sob análise
Os indiciamentos constam no relatório da Polícia Federal e ainda não representam condenação.
Agora, caberá ao Ministério Público avaliar os elementos reunidos no inquérito e decidir se oferece denúncia à Justiça.
Os investigados seguem com direito à ampla defesa e ao contraditório.
O espaço permanece aberto para manifestação dos citados, das empresas mencionadas, da ANM e das respectivas defesas.
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