Coluna do Jota Garcia

Eleição no AM: hipotético embate entre Omar X David, política volta ser política

Por Jota Garcia

Por um instante, imagine que a eleição para o Governo do Amazonas tivesse resolvido abandonar os marqueteiros e voltado a ser aquilo que sempre foi: uma disputa de poder, memória e sobrevivência. Nesse cenário, Omar Aziz e David Almeida se encontrariam frente a frente num segundo turno que PL muito menos sobre programas de governo e muito mais sobre a capacidade de cada um convencer o eleitor de que representa o futuro sem parecer excessivamente responsável pelo passado.

Em Brasília, onde as alianças mudam de endereço com a velocidade dos aplicativos de transporte, Omar Aziz construiu a reputação de operador político experiente. Não é um personagem que costuma entrar em campo para aprender as regras do jogo. Conhece os atalhos, os labirintos e os becos sem saída da política amazonense.

David Almeida, por sua vez, chegou à Prefeitura de Manaus carregando a narrativa da renovação possível dentro do sistema tradicional. O problema é que a política tem uma crueldade peculiar: depois que alguém assume o comando da maior cidade do Estado, deixa de ser promessa e passa a ser cobrança.

Num eventual segundo turno, a campanha dificilmente seria uma discussão filosófica sobre desenvolvimento regional. Seria uma disputa de narrativas.

De um lado, Omar tentaria se apresentar como figura de estabilidade política, alguém capaz de reunir grupos distintos e navegar em águas turbulentas sem perder o rumo. Sua estratégia histórica sempre esteve associada à articulação, à capacidade de dialogar e à construção de alianças amplas.

Do outro, David precisaria convencer o eleitorado de que a experiência acumulada na Prefeitura pode ser transformada em capital político estadual. O desafio seria escapar da armadilha que costuma perseguir prefeitos de capitais: tudo o que acontece na cidade, do buraco na rua à chuva torrencial, acaba sendo debitado na conta do ocupante do cargo.

A política amazonense possui uma característica curiosa. Manaus concentra a maior parte do eleitorado, mas o interior frequentemente redefine os resultados. É por isso que campanhas construídas exclusivamente na capital costumam descobrir tarde demais que o mapa eleitoral do Amazonas é maior do que o horizonte visto da Ponta Negra.

Num confronto direto, Omar provavelmente buscaria transformar a eleição em um julgamento administrativo da gestão municipal. É uma estratégia clássica. Quando o adversário ocupa cargo executivo, o passado recente torna-se material de campanha.

David, por sua vez, tenderia a explorar o discurso da renovação geracional e da necessidade de novos ciclos políticos, tentando apresentar a própria trajetória como contraponto ao grupo político tradicional representado por seus adversários.

Há ainda outro elemento: a coerência política.

O eleitor costuma perdoar muitos defeitos, mas raramente ignora movimentos considerados contraditórios. Em ambientes polarizados, mudanças de posicionamento, alianças inesperadas e declarações divergentes costumam ser exploradas até a exaustão pelos adversários.

No fim das contas, um eventual segundo turno entre Omar Aziz e David Almeida seria menos uma disputa entre esquerda e direita e mais um confronto entre duas formas distintas de exercer poder.

De um lado, a experiência acumulada ao longo de décadas.

Do outro, a tentativa de transformar uma administração municipal em projeto estadual.

Como acontece em quase todas as eleições relevantes, analistas fariam previsões categóricas, marqueteiros venderiam certezas e dirigentes partidários distribuiriam otimismo em doses industriais.

As urnas, como sempre, ouviriam tudo em silêncio.

E responderiam apenas no último minuto.

Porque a política brasileira tem muitos especialistas, mas continua não tendo dono.