
Segundo a Polícia Federal, organização criminosa usa ouro extraído ilegalmente para abastecer tráfico de armas e drogas na fronteira
Manaus – A confirmação de que o Comando Vermelho (CV) assumiu o controle de um dos maiores garimpos ilegais do país expõe uma nova fase da atuação das facções criminosas na Amazônia Legal.
A mineração clandestina deixou de representar apenas um crime ambiental. Agora, segundo investigações da Polícia Federal, também funciona como fonte de financiamento para o crime organizado.
O caso envolve o Garimpo Cururu, localizado na Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso.
De acordo com a PF, a área está sob domínio do Comando Vermelho. A facção, que inicialmente oferecia segurança armada aos garimpeiros, passou a controlar áreas de exploração ilegal de ouro.
Além disso, o grupo utiliza o minério como moeda de troca para adquirir armas e drogas em países vizinhos.
Com isso, a facção fortalece sua atuação dentro e fora do Brasil.
Ausência do Estado abriu espaço para facções
O caso revela um cenário que especialistas alertam há anos.
A ausência efetiva do Estado em regiões remotas abriu caminho para que organizações criminosas transformassem o garimpo ilegal em uma atividade altamente lucrativa.

Nesse modelo, crimes ambientais, tráfico internacional, lavagem de dinheiro e violência contra povos indígenas passam a operar de forma integrada.
A disputa pelo ouro, portanto, deixou de ser apenas uma questão de exploração mineral clandestina.
Ela passou a envolver controle territorial, circulação de armas, rotas de drogas e ameaça direta a comunidades tradicionais.
Força-tarefa atua desde março
Desde março, uma força-tarefa coordenada pela Casa Civil intensificou o combate à mineração clandestina na Terra Indígena Sararé.
O território pertence ao povo Nambikwara.
A área concentra 1.117 frentes de garimpo distribuídas em cerca de 67 mil hectares.
Até poucos meses atrás, mais de duas mil pessoas atuavam ilegalmente na região.
A dimensão da ocupação irregular mostra o tamanho da estrutura criminosa instalada dentro de um território protegido por lei.
Operação prendeu 72 pessoas
A operação já resultou na prisão de 72 pessoas.
As forças de segurança também apreenderam 153 quilos de ouro e mais de 42 mil litros de óleo diesel.
Além disso, destruíram 33 túneis, quase quatro toneladas de explosivos, cerca de 200 acampamentos e centenas de equipamentos utilizados na atividade ilegal.
Os números mostram a escala industrial da exploração clandestina.
Ao mesmo tempo, revelam a capacidade de organização, logística e financiamento dos grupos envolvidos no garimpo.
Controle de terra indígena acende alerta
Apesar dos resultados da operação, o caso também evidencia a gravidade da ocupação criminosa.
O fato de uma facção conseguir controlar a exploração de recursos naturais dentro de uma terra indígena levanta questionamentos sobre a capacidade do poder público de agir antes da consolidação desse domínio.

A presença do Comando Vermelho no Garimpo Cururu reforça uma preocupação crescente das autoridades.
Facções criminosas passaram a disputar áreas de interesse econômico na Amazônia Legal, especialmente onde há baixa presença permanente do Estado.
Devastação ameaça povo Nambikwara
Os impactos da mineração ilegal vão além da segurança pública.
A devastação causada pelo garimpo alterou o lençol freático e contaminou o Rio Sararé com mercúrio e cianeto.
As duas substâncias são altamente tóxicas.
Seus efeitos ambientais podem permanecer por séculos.
A contaminação compromete a pesca, a qualidade da água e a saúde das comunidades que dependem diretamente do território.
Além disso, a degradação ameaça a sobrevivência física e cultural do povo Nambikwara.
Governo de Mato Grosso anuncia base policial
Diante do avanço da criminalidade na região, o governo de Mato Grosso anunciou a construção de uma base policial.
A medida busca reforçar a presença das forças de segurança na área da Terra Indígena Sararé.
No entanto, lideranças indígenas defendem ações permanentes de fiscalização e proteção territorial.
Para elas, operações pontuais não bastam para impedir novas invasões.
A proteção efetiva do território exige presença contínua do Estado, monitoramento ambiental, inteligência policial e responsabilização da cadeia econômica que financia o garimpo.
Problema de segurança nacional
O avanço do Comando Vermelho sobre o garimpo ilegal mostra que a disputa por recursos naturais na Amazônia Legal deixou de ser apenas uma pauta ambiental.

Trata-se também de um problema de segurança nacional.
Facções criminosas exploram a ausência do Estado para financiar suas atividades, ampliar influência e controlar territórios estratégicos.
Com isso, colocam em risco comunidades tradicionais, o patrimônio ambiental brasileiro e a soberania sobre áreas sensíveis da Amazônia.
Reportagem do Fantástico revelou detalhes
As informações e os detalhes da operação na Terra Indígena Sararé foram apresentados em reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo (29).
A reportagem se baseou em investigações da Polícia Federal e em dados das forças de segurança que atuam na região.
O caso reforça a necessidade de integração entre órgãos federais, estaduais, ambientais, policiais e indigenistas para enfrentar a expansão das facções sobre áreas protegidas.
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