Coluna do Jota Garcia

Garimpo ilegal sob controle do CV expõe avanço das facções sobre terras indígenas

Policiais federais destroem balsas com dragas no combate ao garimpo ilegal no Amazonas Foto: Divulgação/PF
Segundo a Polícia Federal, organização criminosa usa ouro extraído ilegalmente para abastecer tráfico de armas e drogas na fronteira

Manaus – A confirmação de que o Comando Vermelho (CV) assumiu o controle de um dos maiores garimpos ilegais do país expõe uma nova fase da atuação das facções criminosas na Amazônia Legal.

A mineração clandestina deixou de representar apenas um crime ambiental. Agora, segundo investigações da Polícia Federal, também funciona como fonte de financiamento para o crime organizado.

O caso envolve o Garimpo Cururu, localizado na Terra Indígena Sararé, no oeste de Mato Grosso.

De acordo com a PF, a área está sob domínio do Comando Vermelho. A facção, que inicialmente oferecia segurança armada aos garimpeiros, passou a controlar áreas de exploração ilegal de ouro.

Além disso, o grupo utiliza o minério como moeda de troca para adquirir armas e drogas em países vizinhos.

Com isso, a facção fortalece sua atuação dentro e fora do Brasil.

Ausência do Estado abriu espaço para facções

O caso revela um cenário que especialistas alertam há anos.

A ausência efetiva do Estado em regiões remotas abriu caminho para que organizações criminosas transformassem o garimpo ilegal em uma atividade altamente lucrativa.

Dragas destruídas na operação Boiúna contra o garimpo ilegal no sul do Amazonas — Foto: Divulgação/PF

Nesse modelo, crimes ambientais, tráfico internacional, lavagem de dinheiro e violência contra povos indígenas passam a operar de forma integrada.

A disputa pelo ouro, portanto, deixou de ser apenas uma questão de exploração mineral clandestina.

Ela passou a envolver controle territorial, circulação de armas, rotas de drogas e ameaça direta a comunidades tradicionais.

Força-tarefa atua desde março

Desde março, uma força-tarefa coordenada pela Casa Civil intensificou o combate à mineração clandestina na Terra Indígena Sararé.

O território pertence ao povo Nambikwara.

A área concentra 1.117 frentes de garimpo distribuídas em cerca de 67 mil hectares.

Até poucos meses atrás, mais de duas mil pessoas atuavam ilegalmente na região.

A dimensão da ocupação irregular mostra o tamanho da estrutura criminosa instalada dentro de um território protegido por lei.

Operação prendeu 72 pessoas

A operação já resultou na prisão de 72 pessoas.

As forças de segurança também apreenderam 153 quilos de ouro e mais de 42 mil litros de óleo diesel.

Além disso, destruíram 33 túneis, quase quatro toneladas de explosivos, cerca de 200 acampamentos e centenas de equipamentos utilizados na atividade ilegal.

Os números mostram a escala industrial da exploração clandestina.

Ao mesmo tempo, revelam a capacidade de organização, logística e financiamento dos grupos envolvidos no garimpo.

Controle de terra indígena acende alerta

Apesar dos resultados da operação, o caso também evidencia a gravidade da ocupação criminosa.

O fato de uma facção conseguir controlar a exploração de recursos naturais dentro de uma terra indígena levanta questionamentos sobre a capacidade do poder público de agir antes da consolidação desse domínio.

Foto: Divulgação

A presença do Comando Vermelho no Garimpo Cururu reforça uma preocupação crescente das autoridades.

Facções criminosas passaram a disputar áreas de interesse econômico na Amazônia Legal, especialmente onde há baixa presença permanente do Estado.

Devastação ameaça povo Nambikwara

Os impactos da mineração ilegal vão além da segurança pública.

A devastação causada pelo garimpo alterou o lençol freático e contaminou o Rio Sararé com mercúrio e cianeto.

As duas substâncias são altamente tóxicas.

Seus efeitos ambientais podem permanecer por séculos.

A contaminação compromete a pesca, a qualidade da água e a saúde das comunidades que dependem diretamente do território.

Além disso, a degradação ameaça a sobrevivência física e cultural do povo Nambikwara.

Governo de Mato Grosso anuncia base policial

Diante do avanço da criminalidade na região, o governo de Mato Grosso anunciou a construção de uma base policial.

A medida busca reforçar a presença das forças de segurança na área da Terra Indígena Sararé.

No entanto, lideranças indígenas defendem ações permanentes de fiscalização e proteção territorial.

Para elas, operações pontuais não bastam para impedir novas invasões.

A proteção efetiva do território exige presença contínua do Estado, monitoramento ambiental, inteligência policial e responsabilização da cadeia econômica que financia o garimpo.

Problema de segurança nacional

O avanço do Comando Vermelho sobre o garimpo ilegal mostra que a disputa por recursos naturais na Amazônia Legal deixou de ser apenas uma pauta ambiental.

Foto: Divulgação

Trata-se também de um problema de segurança nacional.

Facções criminosas exploram a ausência do Estado para financiar suas atividades, ampliar influência e controlar territórios estratégicos.

Com isso, colocam em risco comunidades tradicionais, o patrimônio ambiental brasileiro e a soberania sobre áreas sensíveis da Amazônia.

Reportagem do Fantástico revelou detalhes

As informações e os detalhes da operação na Terra Indígena Sararé foram apresentados em reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo (29).

A reportagem se baseou em investigações da Polícia Federal e em dados das forças de segurança que atuam na região.

O caso reforça a necessidade de integração entre órgãos federais, estaduais, ambientais, policiais e indigenistas para enfrentar a expansão das facções sobre áreas protegidas.

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