Por Jota Garcia
O governo provisório formado pela aliança Cidade e Serafim recuou, nesta semana, da decisão de remanejar R$ 100 milhões destinados ao custeio da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), uma medida que provocou revolta na comunidade acadêmica, na sociedade civil e entre setores políticos, gerando uma repercussão negativa que forçou a reversão do plano. O recuo, embora visto como uma vitória momentânea para quem defende a educação pública, não apaga os questionamentos sobre os reais objetivos da proposta original — e levanta debates sobre a gestão fiscal e a trajetória dos responsáveis pela medida.
O remanejamento, conforme ficou claro nos dias que se seguiram ao anúncio inicial, tinha como destino final a cobertura financeira da Amazon Prev, o sistema de previdência estadual. O que chamou a atenção, e gerou ainda mais indignação, é que a necessidade de aporte na instituição está ligada a uma manobra considerada criminosa envolvendo o Banco Master, uma operação que já é alvo de investigações e que deixou um rombo nas contas públicas do estado. Ao tentar usar recursos da UEA para tapar esse buraco, o governo provisório transferia para a educação o ônus de erros e irregularidades praticadas em outras esferas, um movimento classificado por especialistas como um ataque direto ao futuro do Amazonas.
Para entender a gravidade da medida, é preciso olhar para quem está à frente das decisões financeiras dessa gestão: Serafim, figura que se apresenta publicamente como um especialista de excelência nas áreas fiscal e financeira, capaz de equilibrar contas e resolver problemas orçamentários. Mas a realidade da sua trajetória conta uma história muito diferente. Antes de ocupar espaço no governo provisório, Serafim foi prefeito de Manaus — e sua gestão foi marcada por uma rejeição popular histórica. Ele não conseguiu se reeleger justamente porque o seu modo de governar, baseado em cortes arbitrários, prioridades equivocadas e distanciamento das demandas da população, foi amplamente reprovado pelos eleitores. Avaliações independentes, pesquisas de opinião e análises de gestão chegaram a apontá-lo como um dos piores prefeitos da história recente da capital amazonense, um dado que contrasta fortemente com a imagem que ele tenta projetar de si mesmo.
O recuo diante da pressão social e política é um sinal claro de que a equipe de governo não calculou o impacto da sua decisão. O que parecia, para eles, uma solução rápida para um problema financeiro urgente, transformou-se em uma crise política que expôs a falta de cuidado com áreas essenciais. A UEA, uma das principais instituições de ensino superior, pesquisa e extensão do estado, tem um papel fundamental na formação de profissionais, na geração de conhecimento e no desenvolvimento regional. Seus recursos de custeio são usados para manter salários, infraestrutura, projetos de pesquisa e atendimento à comunidade — qualquer redução ou remanejamento coloca em risco o funcionamento de cursos, a qualidade do ensino e até mesmo a continuidade de atividades que beneficiam diretamente a população do interior e da capital.
Especialistas em gestão pública ouvidos por este veículo alertam que o recuo, embora necessário, não resolve o problema de fundo. A proposta original revela uma lógica de gestão que repete erros do passado: a de tratar áreas sociais como educação, saúde e assistência como despesas secundárias, que podem ser sacrificadas para resolver questões emergenciais, muitas vezes causadas por má gestão ou irregularidades. No caso da Amazon Prev, o cerne da questão não é a falta de recursos, mas sim a necessidade de apurar responsabilidades pela manobra com o Banco Master, recuperar valores desviados ou mal aplicados e reformar o sistema de previdência de forma sustentável, sem penalizar setores que são a base do desenvolvimento do estado.
Para a comunidade acadêmica, o episódio é um alerta. “Nós lutamos muito para garantir o financiamento da UEA, e ver que o governo tenta tirar o nosso dinheiro para cobrir erros de outras áreas é inaceitável”, disse a presidente da Associação dos Docentes da UEA, em nota pública. “O recuo é positivo, mas precisamos de garantias de que isso não vai acontecer novamente, e de que a educação será tratada como prioridade, não como reserva de caixa.”
Já no cenário político, a repercussão do caso e o recuo forçado começam a ser analisados como um prenúncio do que pode ocorrer nas próximas eleições. Serafim e o grupo Cidade e Serafim tentam reconstruir a sua imagem pública, mas ações como essa reacendem memórias de uma gestão municipal rejeitada e demonstram que, ao que tudo indica, as lições sobre o que é governar com responsabilidade e respeito à população não foram aprendidas.
O recuo pode ter sido uma medida para conter a crise no curto prazo, mas as perguntas que ficam são incômodas: que outras medidas equivocadas estão sendo planejadas? Quais áreas essenciais podem ser alvo de novos remanejamentos? E, principalmente, até quando a população vai aceitar que os erros da gestão pública sejam pagos com o dinheiro e o futuro da educação?
A resposta, tudo indica, será dada não só nas manifestações e nos debates atuais, mas também nas urnas. Porque, como a história mostra, gestores que não respeitam as prioridades da sociedade e que repetem erros já condenados pela população, costumam receber o seu veredito nas eleições. E, para Cidade e Serafim, o episódio do remanejamento da UEA pode ter sido apenas o primeiro capítulo de um julgamento público que está apenas começando.
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