Por Jota Garcia
Enquanto o senador Omar Aziz mantém um discurso duro contra o ex-governador Wilson Lima, relembrando processos, denúncias envolvendo respiradores comprados durante a pandemia e episódios que se transformaram em símbolos nacionais da crise sanitária no Amazonas, uma cena ocorrida em Brasília continua ecoando nos bastidores da política amazonense.
Foi durante a CPI da Pandemia no Senado que o então deputado estadual Fausto Júnior, relator da CPI da Covid na Assembleia Legislativa do Amazonas, protagonizou um dos momentos mais desconfortáveis para Omar Aziz.
Naquele dia, Fausto não apenas reafirmou críticas à gestão de Wilson Lima. Foi além. Declarou que, na sua avaliação, a investigação deveria alcançar todos os governadores do Amazonas desde 2011, incluindo o próprio Omar Aziz.
A afirmação caiu como uma bomba.
A memória seletiva da política
Hoje, Omar Aziz costuma aparecer como um dos principais críticos dos escândalos que marcaram a pandemia no Amazonas. Sua atuação na CPI do Senado lhe conferiu projeção nacional e consolidou a imagem de fiscal da gestão Wilson Lima.
Mas a fala de Fausto Júnior trouxe à tona uma questão que a política amazonense frequentemente tenta empurrar para debaixo do tapete: a responsabilidade histórica pelo colapso da saúde pública no estado.
Ao afirmar que “todos os governadores investigados pela CPI mereciam ser indiciados”, Fausto não estava apenas atacando Wilson Lima. Estava questionando um modelo de gestão que atravessou diferentes governos e grupos políticos.
A declaração atingiu diretamente Omar Aziz, que governou o Amazonas entre 2010 e 2014.
O embate que poucos gostam de recordar
O clima esquentou quando Fausto citou pagamentos de aproximadamente R$ 50 milhões em verbas indenizatórias realizados durante a gestão de Omar.
A resposta veio de imediato.
Aziz questionou se havia crime.
Fausto admitiu que não.
O senador então desmontou o argumento sob a ótica jurídica e apontou uma contradição no relatório produzido pelo deputado.
Se não havia crime, por que citar o episódio como fundamento para responsabilização?
A discussão revelou algo mais profundo: a distância entre o discurso político e a robustez das provas necessárias para sustentar acusações.
Omar saiu daquele confronto argumentando que suas contas haviam sido aprovadas pelos órgãos de controle e que a própria CPI estadual não havia produzido conclusões que justificassem responsabilização criminal.
A pergunta que permanece
Passados os anos, a questão continua atual.
Quando Omar Aziz aponta o dedo para Wilson Lima, estaria exercendo legitimamente seu papel fiscalizador ou ignorando que a crise estrutural da saúde amazonense não começou em 2019?
O Amazonas enfrentava problemas graves muito antes da pandemia.
Filas, falta de leitos, contratos questionados, dependência de organizações sociais e sucessivas denúncias de má gestão não nasceram durante o governo Wilson Lima. São problemas que atravessaram diferentes administrações.
Foi justamente essa linha de raciocínio que Fausto Júnior tentou levar para a CPI do Senado.
E é exatamente por isso que aquele bate-boca continua sendo tão incômodo.
Dois pesos, duas medidas?
A política brasileira tem uma característica recorrente: personagens que ontem eram investigados transformam-se em investigadores; aliados viram adversários; acusadores tornam-se acusados.
Quando isso acontece, a memória institucional costuma ser substituída pela conveniência eleitoral.
Omar Aziz tem o direito de cobrar explicações de Wilson Lima.
Mas a sociedade amazonense também tem o direito de lembrar que houve um momento em que o próprio relator da CPI da Covid no Amazonas afirmou, diante de todo o país, que o então presidente da CPI da Pandemia também deveria ter sido alvo de responsabilização política.
A diferença é que essa parte da história raramente aparece nos discursos mais recentes.
E talvez seja justamente por isso que ela mereça ser lembrada.
Porque, em um estado marcado por sucessivos escândalos na saúde, a verdadeira discussão nunca deveria ser quem aponta o dedo, mas quem consegue manter as próprias mãos longe das sombras que ainda pairam sobre o passado.






