Coluna do Jota Garcia

Opinião – David Almeida e Roberto Cidade: a eleição que pode aposentar uma geração política no Amazonas

Imagem: IA generativa

Por Jota Garcia

Por vezes, a política produz adversários. Em outras ocasiões, produz espelhos. A disputa pelo Governo do Amazonas em 2026 parece caminhar para a segunda hipótese.

David Almeida e Roberto Cidade pertencem a trajetórias diferentes na forma, mas semelhantes na essência. Ambos emergiram de uma geração política que prometeu renovação sem conseguir, até o momento, consolidar uma identidade própria diante do eleitorado amazonense. Ambos construíram poder a partir de alianças amplas, ocuparam posições estratégicas no Estado e chegaram ao período pré-eleitoral carregando um patrimônio político valioso, mas também um passivo considerável.

A pergunta que começa a circular nos bastidores de Manaus e do interior é direta: a eleição de 2026 servirá para aposentar os dois ou apenas um deles?

A armadilha da semelhança

A principal dificuldade para David Almeida e Roberto Cidade talvez não esteja nos adversários externos, mas na proximidade política que o eleitor percebe entre ambos.

Os dois se movimentam dentro do mesmo ambiente político, dialogam com grupos semelhantes, dependem de estruturas tradicionais e enfrentam críticas parecidas. Quando o eleitor observa suas campanhas, muitas vezes encontra discursos próximos, compromissos semelhantes e estratégias eleitorais que raramente apresentam grandes diferenças.

Em eleições competitivas, a semelhança pode ser um problema maior do que a rejeição.

Quando dois candidatos ocupam o mesmo espaço político, eles passam a disputar o mesmo eleitorado. Em vez de ampliar fronteiras, acabam dividindo território. O resultado costuma ser o enfraquecimento mútuo e a abertura de espaço para uma terceira alternativa.

Foi assim em diversas disputas estaduais pelo país. Enquanto dois grupos brigavam entre si pelo mesmo eleitor, um terceiro candidato aparecia como novidade e capturava o sentimento de mudança.

O peso das promessas não cumpridas

Nenhum político chega a uma disputa majoritária carregando apenas suas realizações. As promessas também votam.

No caso de David Almeida, a gestão municipal continuará sendo julgada diariamente pelos problemas urbanos que afetam Manaus. Mobilidade, infraestrutura, saúde básica e qualidade dos serviços públicos continuarão no centro do debate eleitoral.

Já Roberto Cidade terá de enfrentar outro desafio: convencer o eleitor de que sua atuação à frente da Assembleia Legislativa ( como governador interino, não assumiu de fato ) produziu resultados concretos capazes de justificar uma promoção política para o cargo de governador.

O problema é que o eleitor amazonense vem demonstrando crescente desconfiança em relação às promessas tradicionais.

O discurso da mudança perdeu força quando repetido por quem já ocupa posições de poder. Da mesma forma, a experiência administrativa deixa de ser diferencial quando a população não percebe melhorias proporcionais em sua vida cotidiana.

Assessores que confirmam, mas não alertam

Nos bastidores políticos existe uma máxima antiga: campanhas não costumam fracassar pela falta de elogios.

Uma crítica recorrente aos grupos que cercam lideranças consolidadas é a dificuldade de apresentar diagnósticos sinceros. Em muitos casos, pesquisas internas são interpretadas de forma otimista, problemas são minimizados e decisões estratégicas passam a ser tomadas dentro de uma bolha política.

David Almeida e Roberto Cidade parecem enfrentar esse mesmo risco.

Os círculos de poder frequentemente produzem uma cultura de concordância permanente. Poucos assessores estão dispostos a transmitir más notícias ou contestar decisões. O resultado é a criação de campanhas que falam para si mesmas, mas deixam de ouvir a sociedade.

A história eleitoral brasileira está repleta de candidatos derrotados que chegaram à eleição convencidos de que venceriam.

Existe espaço para os dois no segundo turno?

Matematicamente, sim.

Politicamente, a questão é mais complexa.

Para que ambos cheguem ao segundo turno, seria necessário que conseguissem preservar suas bases eleitorais e impedir o surgimento de um nome competitivo capaz de concentrar o voto da insatisfação.

Esse cenário não é impossível, mas depende de uma fragmentação significativa das candidaturas.

O risco para os dois surge justamente do sentimento de fadiga política que começa a aparecer em parte do eleitorado amazonense. Quando a população passa a enxergar candidatos como representantes do mesmo sistema político, abre-se espaço para alternativas que se apresentem como novidade, mesmo que essa novidade seja apenas uma construção eleitoral.

A eleição de 2026 poderá ser decidida menos pela força dos favoritos e mais pela capacidade de terceiros atores ocuparem o espaço deixado pela insatisfação popular.

O julgamento de uma geração

Mais do que uma disputa entre David Almeida e Roberto Cidade, a próxima eleição para o Governo do Amazonas poderá representar o julgamento de uma geração política inteira.

Trata-se de líderes que cresceram institucionalmente, conquistaram mandatos, ampliaram influência e chegaram aos principais centros de decisão do Estado. Entretanto, ainda enfrentam dificuldades para transformar poder político em legitimidade popular duradoura.

O eleitor amazonense parece cobrar algo além da ocupação de cargos. Cobra resultados, identidade política, coerência administrativa e capacidade de liderança.

É justamente nesse ponto que a disputa se torna decisiva.

Se um dos dois vencer, poderá consolidar sua trajetória e garantir sobrevida política para seu grupo.

Se ambos forem derrotados por uma alternativa emergente, a eleição será lembrada como o momento em que o eleitor decidiu encerrar um ciclo e abrir outro.

A grande incógnita

Ainda é cedo para decretar o futuro político de David Almeida ou Roberto Cidade.

A política amazonense possui histórico de reviravoltas, alianças inesperadas e mudanças bruscas de humor do eleitorado. O que parece consolidado hoje pode desaparecer em poucos meses.

Mas uma realidade já se impõe.

Os dois chegam à disputa carregando virtudes e fragilidades semelhantes. Ambos possuem estrutura, visibilidade e experiência. Ambos também enfrentam desgaste, cobranças e dúvidas sobre sua capacidade de representar uma renovação verdadeira.

A pergunta, portanto, permanece aberta:

o povo amazonense aposentará os dois ou concederá a um deles mais uma oportunidade?

A resposta não está nos gabinetes, nas pesquisas internas ou nas reuniões partidárias.

Como sempre acontece nas democracias, ela estará nas urnas.

E, até lá, todas as apostas continuam em aberto.