Por Jota Garcia
Nos bastidores da política amazonense, o nome da pré-candidata ao governo do estado Maria do Carmo passou a ser sinônimo de divisão, tensão interna e rompimentos sucessivos. O cenário, que já se apresentava conturbado, ganhou contornos ainda mais graves nas últimas semanas, com declarações públicas, acusações mútuas e um racha que atinge desde deputados estaduais até lideranças históricas de legendas que se apresentam como referências de ética e transparência no cenário regional.
O primeiro sinal de alerta alto veio há poucos dias, por meio de uma entrevista do deputado estadual Cabo Maciel. Em tom direto e sem meias palavras, o parlamentar declarou publicamente que Maria do Carmo não era sua candidata ao governo do Amazonas. A fala, proferida em espaço aberto e amplamente repercutida, não foi apenas uma divergência de opinião: foi um recado claro de que a pré-candidata não consegue construir alianças sólidas, nem reunir apoio entre as próprias fileiras que deveriam, em tese, caminhar unidas em prol de um projeto comum. A afirmação de Cabo Maciel expôs uma realidade que já era comentada nos corredores: a estratégia de Maria do Carmo é centrada em sua própria figura, sem espaço para diálogo, construção coletiva ou respeito a posicionamentos diferentes.
A crise ganhou proporções ainda maiores nesta semana, com o rompimento oficial de Péricles Nascimento, filiado ao partido que se autodenomina “o mais honesto do mundo”. Péricles, que até então era colega de trabalho e aliado próximo da pré-candidata, gravou um vídeo público que viralizou nas redes sociais e veículos de comunicação locais, onde expôs detalhes de uma briga política que, segundo ele, começou por causa de sua postura dentro da legenda. Em sua declaração, Péricles acusa diretamente Maria do Carmo de ter ordenado a produção e veiculação de uma matéria totalmente mentirosa contra sua imagem, como forma de retaliação por ele ter defendido posições políticas que não alinhavam com os interesses pessoais da pré-candidata.
“Eu só defendi o que eu acredito e o que o partido prega, e a resposta que eu tive foi uma mentira espalhada para tentar desmoralizar o meu trabalho”, afirmou Péricles no vídeo, visivelmente indignado. O rompimento não é apenas uma saída de quadro: é um golpe na credibilidade de quem tenta se apresentar como uma alternativa política, já que a acusação de usar de meios falsos para atacar adversários internos vai contra todos os princípios que a própria legenda diz defender. O episódio também reforça a tese que já circula entre analistas políticos: para Maria do Carmo, a política não é uma ferramenta de transformação social, mas sim um espaço de disputa pessoal, onde quem discorda é tratado como inimigo e punido publicamente.
Toda essa sucessão de conflitos chegou diretamente à mesa de quem comanda as decisões mais importantes da política local: Alfredo Nascimento, conhecido como “o dono da caneta” no cenário amazonense, uma referência histórica, com poder de articulação e capacidade de definir rumos de candidaturas e alianças. Procurada pela imprensa, sua assessoria emitiu uma nota curta, mas contundente, que resume o posicionamento do líder: “Alfredo Nascimento lavou as mãos diante dessa situação”.
Nos bastidores, a mensagem é ainda mais clara. Segundo pessoas próximas à liderança, Alfredo teria dito, em conversas reservadas, que não há mais espaço para tentar conciliar ou orientar a pré-candidata. “Ela não ouve ninguém, não aceita conselhos, não entende que a política se faz com pessoas. Então, que ela faça a campanha dela, e eu faço o que é necessário para o grupo”, teria declarado Alfredo, em tom de desistência de qualquer tentativa de alinhamento.
Com o afastamento de Alfredo Nascimento, o caminho de Maria do Carmo perde sua principal estrutura de apoio político e institucional. Enquanto ela segue isolada, centrada em sua própria agenda, o grupo comandado por Alfredo já trabalha em uma nova articulação, liderada por um dos seus interlocutores mais antigos e confiáveis: José Aparecido. Amigo de longa data da liderança, Aparecido assumiu a missão de aproximar o nome de Roberto Cidade — um nome com trajetória consolidada, diálogo aberto e capacidade de agregar diferentes setores da sociedade — ao projeto político de Alfredo Nascimento.
A movimentação de Aparecido é vista por analistas como um passo definitivo para deixar de lado as mazelas que Maria do Carmo trouxe para dentro do grupo: a falta de diálogo, a postura autoritária, os rompimentos e as acusações que mancharam a imagem de todos os envolvidos. A pergunta que não quer calar, agora, é uma só: Maria do Carmo conseguirá seguir como pré-candidata sem o apoio das lideranças, sem aliados e com uma reputação abalada por conflitos internos? Ou seu projeto, que já nasceu com marcas de divisão, vai ficar apenas como um exemplo de como a política pessoal, que não agrega ninguém, não tem espaço para crescer em um estado que precisa de união e projetos sérios?
Por enquanto, o cenário é de incerteza, mas com uma certeza clara: as rachaduras abertas por Maria do Carmo não são mais pequenas fendas. São feridas profundas na seara política do Amazonas, que só serão curadas se o grupo, e a população, optarem por caminhos que priorizem o coletivo, o diálogo e o respeito — valores que, até aqui, ficaram muito distantes da forma como a pré-candidata tem conduzido sua trajetória.






