Coluna do Jota Garcia

Opinião – Eleição no Amazonas: quando as algemas não produzem consequências

Por Jota Garcia

No Amazonas, como em boa parte do Brasil, a crise de confiança nas instituições não nasce apenas da corrupção, das denúncias ou das operações policiais. Ela floresce principalmente quando os cidadãos assistem a uma sequência de escândalos e não conseguem identificar consequências proporcionais aos fatos que ocuparam manchetes, telejornais e discursos oficiais.

O problema não está necessariamente na existência de investigações. Em democracias saudáveis, investigar é obrigação do Estado. O problema surge quando a população vê prisões, operações espetaculares, conduções coercitivas, apreensões, coletivas de imprensa e acusações graves, mas anos depois encontra os mesmos personagens ocupando cargos públicos, disputando eleições ou ampliando seu poder político.

A percepção popular passa a ser devastadora: as instituições parecem fortes para produzir manchetes e frágeis para produzir resultados.

No Amazonas, episódios que mobilizaram a opinião pública ao longo dos últimos anos ajudam a explicar esse sentimento. Houve operações federais envolvendo figuras da política local, investigações sobre contratos públicos, denúncias de compra de votos, suspeitas relacionadas à administração municipal e estadual, além de questionamentos sobre a atuação de agentes da segurança pública.

Em muitos desses casos, entretanto, a distância entre a acusação inicial e uma eventual punição definitiva tornou-se tão grande que o cidadão comum perdeu a capacidade de acompanhar os desdobramentos.

É importante registrar um princípio fundamental: ninguém deve ser considerado culpado sem condenação definitiva. A presunção de inocência é uma garantia constitucional e não pode ser relativizada pelo calor político ou pela pressão das redes sociais.

Mas existe outro princípio igualmente importante: as instituições precisam demonstrar eficiência, transparência e capacidade de conclusão.

Quando um caso se arrasta durante anos sem desfecho claro, a sociedade não enxerga prudência jurídica. Enxerga impunidade.

O resultado é um fenômeno perigoso. O eleitor deixa de avaliar a gravidade das denúncias e passa a acreditar que todas as acusações são apenas instrumentos de disputa política. A fronteira entre inocência comprovada e impunidade torna-se confusa.

No Amazonas, essa sensação é agravada por um histórico de disputas envolvendo grupos políticos tradicionais, investigações amplamente divulgadas e sucessivas tentativas de retorno eleitoral de personagens que já estiveram sob intenso escrutínio público.

A pergunta que emerge não é jurídica. É política.

Como explicar que figuras atingidas por graves questionamentos continuem competitivas eleitoralmente?

Parte da resposta está na própria fragilidade institucional. Outra parte está na ausência de renovação política consistente. Mas há também um componente social relevante: o eleitor tende a priorizar resultados concretos de sua vida cotidiana — emprego, renda, obras, serviços públicos — muito mais do que processos judiciais complexos e frequentemente incompreensíveis.

Quando o sistema de Justiça demora demais para produzir respostas definitivas, a política ocupa esse espaço. E a política opera segundo sua própria lógica: a lógica dos votos.

Nesse ambiente, a credibilidade do Ministério Público, da Polícia Federal, da Polícia Civil, do Tribunal Regional Eleitoral, dos tribunais de contas e do próprio Poder Judiciário passa a ser constantemente questionada.

Não porque essas instituições deixaram de atuar, mas porque a população mede sua eficácia pelo resultado final.

Uma operação sem condenação compreensível para a sociedade gera dúvidas.

Uma denúncia sem julgamento gera dúvidas.

Uma investigação sem conclusão gera dúvidas.

E a soma dessas dúvidas corrói a confiança pública.

O Amazonas entra em mais um ciclo eleitoral carregando esse passivo institucional. O debate não deveria se limitar aos nomes dos candidatos, mas alcançar uma questão maior: a capacidade do Estado de fiscalizar, investigar, julgar e comunicar suas decisões de forma clara para a população.

A democracia não é ameaçada apenas pela corrupção. Ela também é enfraquecida quando os cidadãos deixam de acreditar que as regras valem para todos.

No fim das contas, a grande eleição que o Amazonas precisa vencer talvez não seja a das urnas, mas a da credibilidade das instituições.

Porque quando o eleitor perde a confiança de que denúncias serão esclarecidas e que inocentes serão absolvidos ou culpados serão punidos, instala-se o cenário mais perigoso para uma democracia: a descrença generalizada.

E uma sociedade que não acredita mais em suas instituições acaba acreditando em qualquer coisa. Ou em ninguém.