Por Jota Garcia
Um Observador da Via Dolorosa
Mal as arquibancadas do Bumbódromo silenciaram, com os últimos ecos dos tambores de Garantido e Caprichoso ainda vibrando no ar úmido de Parintins, a ilha tupinambarana já se prepara para outra encenação de gala. Mas engana-se quem pensa que o espetáculo acabou com o fim do festival folclórico. O verdadeiro enredo — aquele que não precisa de jurados formais, mas move cifras astronômicas e costura o destino político da região — ganha o seu ponto alto logo em seguida, sob as bençãos da padroeira.
A contagem regressiva para a tradicional missa de Nossa Senhora do Carmo já começou. E, nos bastidores da sacristia da conveniência humana, o badalado Padre Betão já deu início à sua própria “novena” de arrecadação. O alvo da vez? Nada menos que 15 “terços de ouro eleitoral”. Uma cota generosa, dizem as más línguas, estritamente necessária para a viabilização da “obra política partidária eleitoral”. Afinal de contas, milagres nas urnas não se sustentam apenas com orações e água benta; demandam o bom e velho metal reluzente.
Diante de tamanha heresia republicana, o leitor de boa-fé, ainda apegado a conceitos românticos como “democracia” e “moralidade”, apressa-se a questionar, quase ingênuo: “Mas meu Deus, onde estão os órgãos fiscalizadores? Onde andam a Justiça Eleitoral, o Ministério Público, a patrulha do decoro?”
A resposta repousa no mais puro pragmatismo bíblico-financeiro de Parintins.
Entra em cena a figura caridosa de Zaqueu. No texto sagrado, o cobrador de impostos subiu na árvore para ver a salvação; na versão amazônica da paróquia do poder, Zaqueu preferiu garantir que a salvação batesse à sua porta por meio de uma generosa “oferta de terços de diamantes”. Com tanto brilho ofuscando as retinas de quem deveria fiscalizar, a cegueira institucional torna-se um milagre médico e jurídico instantâneo. Para completar o blindado cenário de santidade terrena, Padre Betão ostenta o maior troféu que um clérigo negociante pode desejar: uma família unida, devota e, acima de tudo, obediente. Uma engrenagem perfeita onde a fé serve de verniz e o silêncio é a regra de ouro.
A certeza da vitória — embalada pela mais doce e santa impunidade — já virou praxe por essas bandas. Enquanto os eleitores e os pequenos comerciantes locais trilham sua própria via dolorosa de extorsões, impostos abusivos e promessas vazias, o alto clero da política local caminha com passos firmes e calçados caros rumo ao pódio. Para eles, a dor do rebanho é apenas o combustível que financia o luxo do altar.
E quem assina o roteiro dessa encenação de fé e cifrões? Quem segura os cordões desse “terço” nada ortodoxo?
Ele mesmo: senador José de Arimatéia. Se no Evangelho o personagem histórico doou seu próprio túmulo para sepultar o corpo de Cristo, o nosso “Arimatéia” caboclo prefere sepultar a ética pública enquanto continua dando as ordens e faturando alto. Ele é o verdadeiro CEO da lucrativa indústria dos “terços benzidos”.
E o segredo da durabilidade desse negócio sagrado? Dizem que as contas desses terços especiais são generosamente ungidas com o mais puro óleo de peroba — excelente para dar brilho à madeira e, principalmente, para blindar a cara de pau dos envolvidos. Tudo isso sustentado por uma inabalável “cara de aquariquara” — aquela madeira rústica, dura e cheia de reentrâncias, perfeita metáfora para a fisionomia daqueles que não demonstram a menor vergonha ao misturar o sagrado e o profano no mesmo caldeirão de interesses.
Enquanto a procissão de Nossa Senhora do Carmo arrasta multidões de fiéis genuínos pelas ruas de Parintins, os arquitetos do “Terço de Ouro” observam do alto, sorrindo. Eles sabem que, na matemática do poder local, a fé move montanhas, mas o ouro eleitoral garante o loteamento delas. Amém.






