Mensagens, comprovantes, cronogramas de pagamento e registros societários ligam o banqueiro ao financiamento de “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro, segundo o Intercept

Uma reportagem publicada pelo Intercept Brasil afirma que o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, financiou parte do filme “Dark Horse”, produção biográfica sobre Jair Bolsonaro, com uma estrutura de pagamentos internacionais que envolveu aliados do clã Bolsonaro, intermediários do mercado e empresas ligadas ao entorno do próprio banqueiro.

Segundo o veículo, diálogos, um comprovante de transferência, tabelas de desembolso e documentos societários indicam que o projeto previa o repasse de 24 milhões de dólares, valor que na época equivalia a cerca de R$ 134 milhões. Desse total, pelo menos 10,6 milhões de dólares, cerca de R$ 61 milhões, já teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações.

Dinheiro teria saído da Entre e seguido para fundo ligado à produção do filme

De acordo com a reportagem, parte do dinheiro foi transferida pela Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, apontado nas mensagens como vinculado à produção do filme.

Arte: The Intercept Brasil

O Intercept afirma que obteve um comprovante de uma ordem de pagamento de US$ 2 milhões, datada de 14 de fevereiro de 2025, em que a Entre aparece como remetente do valor.

Arte: The Intercept Brasil

Além disso, os documentos societários citados pela reportagem mostram que o Havengate foi registrado no Texas e tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Segundo os registros reproduzidos pelo veículo, o fundo aparece ligado à empresa Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial, em Dallas. Os documentos também apontam o corretor de imóveis Altieris Santana como integrante do quadro societário do fundo, enquanto Paulo Calixto aparece como membro e administrador.

Arte: The Intercept Brasil
Intermediários entram nas tratativas

O material publicado pelo Intercept também aponta a participação direta de outros personagens na operação. Entre eles, aparecem o empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro em outras frentes do caso Master.

Arte: The Intercept Brasil

Além disso, segundo a reportagem, investigadores avaliam que Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado ao Grupo Entre e identificado nas mensagens pelo codinome “Mineiro”, atuaria como operador de interesses do banqueiro dentro da companhia.

As mensagens indicariam essa ligação. Em fevereiro de 2025, segundo os registros, Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo depois de o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo, ainda de acordo com a reportagem, aparecia salvo na agenda de Vorcaro como “Mineiro”.

Arte: The Intercept Brasil

O Intercept informou que procurou Freixo, o Grupo Entre, Altieris Santana e Paulo Calixto, mas não recebeu resposta até a publicação do texto.

Relação com Flávio Bolsonaro teria evoluído de intermediação para contato direto

Segundo o Intercept, as conversas abrangem o período de dezembro de 2024 a novembro de 2025 e mostram que a interlocução entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro começou por meio de intermediários, mas depois evoluiu para contato direto.

Arte: The Intercept Brasil

A primeira aproximação registrada teria ocorrido em 8 de dezembro de 2024, quando Thiago Miranda organizou um encontro entre Flávio e Vorcaro em Brasília. Em uma das mensagens reproduzidas pelo veículo, Miranda afirma ao banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente e do SBT $$” e acrescenta que “Flavio está ciente de tudo”.

Arte: The Intercept Brasil

A reunião teria sido marcada para 11 de dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro em Brasília. Segundo a reportagem, imagens da sessão da CCJ do Senado mostram Flávio saindo da sala por volta desse horário e retornando pouco depois das 18h, o que, na leitura do veículo, sugere que uma eventual participação poderia ter ocorrido de forma remota ou em outro local.

Mario Frias teria agradecido apoio ao projeto

Pouco depois do horário previsto para o encontro, às 18h24, o Intercept afirma que Mario Frias enviou áudio a Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto.

Segundo a reportagem, Frias disse que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o país. Em seguida, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica.

Em nota enviada após a publicação, a defesa de Mario Frias confirmou os contatos, mas negou irregularidade. Segundo os advogados, as mensagens refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado. A defesa também negou qualquer atuação de lobby privado ou favorecimento empresarial.

Cobranças por dinheiro aumentaram ao longo de 2025

Nos meses seguintes, segundo o Intercept, as negociações avançaram e as cobranças por liberação de recursos se intensificaram.

Arte: The Intercept Brasil

Em 20 de janeiro de 2025, Thiago Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Flávio Bolsonaro pedia pressão sobre o jurídico do investidor para concluir o processo. Horas depois, de acordo com a reportagem, Vorcaro respondeu: “Vou atras aqui”.

No dia seguinte, 21 de janeiro, Fabiano Zettel teria explicado ao banqueiro que o filme seguiria um fluxo de dez parcelas de US$ 2,5 milhões. Meses depois, porém, Thiago Miranda enviou outro documento com previsão diferente: 14 parcelas, sendo 12 de US$ 1,666 milhão e duas de US$ 2 milhões.

Já em 28 de janeiro, Vorcaro teria demonstrado preocupação com atrasos e definido o projeto como “o mais importante disparado”, além de ordenar: “Nao pode falhar mais”.

Em 12 de março, segundo os registros obtidos pelo Intercept, Vorcaro voltou a cobrar a quitação das parcelas pendentes e encaminhou um cronograma que apontava que apenas a primeira parcela havia sido paga até então. O documento previa seis parcelas, somando os US$ 10,6 milhões entre janeiro e maio de 2025.

Crise do Master atingiu o cronograma de “Dark Horse”

A reportagem afirma que o cronograma do filme coincidiu com a tentativa frustrada de Vorcaro de vender o Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), além do avanço das investigações que mais tarde culminariam em sua prisão.

Em agosto de 2025, Thiago Miranda teria enviado a Vorcaro uma tabela intitulada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, segundo a qual US$ 10,6 milhões já haviam sido transferidos de um total previsto de US$ 23,9 milhões.

Na troca de mensagens, o banqueiro respondeu: “segunda fazemos duas”, enquanto Miranda afirmou que estava “monitorando essa reta final”.

Eduardo Bolsonaro apareceu nas conversas

Segundo o Intercept, Eduardo Bolsonaro apareceu pela primeira vez nas conversas em 21 de março de 2025.

Eduardo Bolsonaro virou alvo em mais um inquérito no STF – Foto: Reprodução

Na ocasião, Thiago Miranda teria encaminhado a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Eduardo sugeria alternativas para facilitar o envio de recursos aos Estados Unidos. A mensagem também dizia que Altieris Santana, apontado como controlador do fundo Havengate, estaria disponível para reuniões presenciais sobre a operação financeira.

O veículo informou que Eduardo Bolsonaro não respondeu aos questionamentos enviados por e-mail.

Flávio cobrou dinheiro e alertou para risco de paralisação do filme

Em 8 de setembro de 2025, poucos dias antes da condenação de Jair Bolsonaro pela trama golpista, Flávio Bolsonaro teria enviado um áudio diretamente a Vorcaro cobrando o saldo pendente.

Na gravação reproduzida pelo Intercept, o senador afirma que havia preocupação com o atraso nos pagamentos a profissionais internacionais envolvidos na produção.

“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos no cinema americano e mundial. Ia ser muito ruim”, teria dito Flávio, em referência ao ator Jim Caviezel e ao diretor Cyrus Nowrasteh.

Segundo a reportagem, Flávio também alertou que o descumprimento dos compromissos financeiros poderia comprometer elenco, direção, contratos e toda a equipe do longa.

“Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”, diz o áudio.

Na resposta, Vorcaro teria pedido desculpas, dito que a semana anterior havia sido muito difícil e prometido resolver o assunto até o dia seguinte. Na mesma noite, os dois fizeram uma ligação de cerca de dois minutos e meio, segundo os registros.

Cinco dias antes dessas mensagens, o BRB havia anunciado que o Banco Central reprovou a venda do Master.

Contato frequente seguiu até novembro

As conversas seguintes mostram, segundo o Intercept, que o contato entre Flávio e Vorcaro continuou frequente ao longo de setembro.

Ainda naquele mês, os dois fizeram quatro ligações e marcaram encontros em São Paulo. Em uma troca de mensagens no dia 17, Vorcaro perguntou “14:30?”, e Flávio respondeu: “Blz”.

Em 22 de outubro, Flávio voltou a cobrar apoio financeiro e afirmou que as filmagens já tinham chegado ao terceiro dia e que a produção estava “no limite”. Segundo ele, caso o dinheiro não saísse, a equipe precisaria buscar “outro caminho”. Vorcaro respondeu: “Deixa comigo”.

No mesmo dia, Flávio convidou o banqueiro para um jantar em São Paulo com Jim Caviezel e Cyrus Nowrasteh, inicialmente marcado para 2 de novembro. Vorcaro sugeriu que o encontro ocorresse em sua própria residência. Depois, Flávio propôs a data de 6 de novembro. Não há confirmação, segundo a reportagem, de que o jantar tenha de fato ocorrido.

Em 7 de novembro, após enviar a Vorcaro um vídeo de visualização única, Flávio escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”. O banqueiro respondeu: “Que demais” e depois completou: “Ficou perfeito”.

Flávio negou e campanha depois falou em financiamento privado

Ao ser questionado presencialmente pelo Intercept, Flávio Bolsonaro respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”, segundo o próprio veículo.

Foto: VINÍCIUS SCHMIDT/@vinicius.foto

Depois, outros veículos registraram manifestação da campanha de Flávio. A Gazeta do Povo informou que o grupo afirmou ter buscado financiamento privado para um filme privado, sem uso de dinheiro público e sem relação com a Lei Rouanet.

Segundo essa versão, Flávio conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia terminado e, de acordo com a nota, ainda não existiam suspeitas públicas contra o banqueiro.

SBT negou relação contratual com o Master

Citado em uma das mensagens reproduzidas pelo Intercept, o SBT afirmou que nunca teve qualquer contrato com o Banco Master.

A emissora disse ainda que o produto CredCesta, vinculado ao grupo Master, realizou ações comerciais entre fevereiro e dezembro de 2024 em programa da casa, e que a relação se limitou à venda de espaços publicitários, como ocorre com outros anunciantes.

Origem do dinheiro do filme entrou no radar após contrato sob investigação

A reportagem também lembra que, em dezembro de 2025, o próprio Intercept revelou que Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil, recebeu pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público sem concluir entregas previstas.

Desde março, segundo o veículo, o Ministério Público investiga esse contrato. Naquele momento, a origem do dinheiro da superprodução ainda era desconhecida.

Filme foi anunciado para setembro de 2026

O ator Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia de “Dark Horse” para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial que Flávio Bolsonaro pretende disputar.

Imagem: Reprodução

No entanto, segundo o texto-base, o site oficial do filme não confirma data de estreia no Brasil.

Caso amplia desgaste político no entorno de Vorcaro

Na prática, o conjunto das mensagens, comprovantes, cronogramas e registros societários descritos pelo Intercept aprofunda o desgaste político em torno de Daniel Vorcaro e do Banco Master. Além disso, a reportagem sustenta que recursos ligados ao banqueiro teriam abastecido um projeto diretamente associado ao clã Bolsonaro por meio de uma estrutura internacional de repasses e intermediários.

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