Coluna do Jota Garcia

Disputa entre Lula e Flávio, sombra do caso Master e desafio da IA no TSE marcam cenário a 100 dias do 1º turno

Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD). Fotos: Oscar Del Pozo/AFP, Evaristo Sá/AFP, Reprodução/Redes Sociais e Marina Ramos/Agência Câmara
Pesquisas mostram vantagem do presidente sobre o senador do PL, enquanto Justiça Eleitoral registra alta de ações sobre propaganda antecipada, deepfakes e inteligência artificial

Brasília – A 100 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, o cenário segue concentrado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

As pesquisas recentes mostram Lula em vantagem sobre Flávio. No entanto, a disputa ainda aparece aberta e sensível a fatos novos.

Ao mesmo tempo, a eleição já chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) antes mesmo do início oficial da campanha. A Corte registra um volume recorde de ações sobre propaganda antecipada, deepfakes e conteúdos produzidos com inteligência artificial.

O ambiente eleitoral também sofre influência direta do caso Banco Master, que atingiu nomes dos dois campos políticos.

De um lado, Flávio enfrenta desgaste após a revelação de conversas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sobre recursos para financiar o filme “Dark Horse”, ligado à trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

De outro, o governo Lula passou a lidar com a pressão gerada pela inclusão do senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo no Senado, nas investigações da Operação Compliance Zero.

Pesquisas mostram Lula à frente

Os levantamentos mais recentes da Quaest e do Datafolha mostram Lula na liderança das intenções de voto no primeiro turno.

Na pesquisa Quaest, o presidente aparece com 39%, contra 29% de Flávio Bolsonaro.

Quaest: Intenção de voto para presidente no 1º turno (junho/2026) — Foto: Arte/g1

No Datafolha, a vantagem é semelhante. Lula registra 41%, enquanto Flávio aparece com 31%.

Os números indicam ampliação da distância entre os dois em relação às pesquisas anteriores, especialmente após a revelação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Quaest: Intenção de voto para segundo turno – Lula X Flávio Bolsonaro (junho/2026) — Foto: Arte/g1

Apesar disso, os levantamentos ainda não captaram a turbulência mais recente na campanha do senador.

Entre os fatos ainda não medidos estão o vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro, no qual ela afirma ter sido desrespeitada por Flávio, e a saída de Jaques Wagner da liderança do governo no Senado após entrar na mira da investigação ligada ao caso Master.

Michelle expõe racha no clã Bolsonaro

A crise familiar no entorno de Flávio Bolsonaro ganhou força após Michelle Bolsonaro divulgar vídeos nas redes sociais.

Nas gravações, a ex-primeira-dama afirmou que foi desrespeitada pelo enteado e expôs um racha interno no grupo político de Jair Bolsonaro.

Michelle publicou vídeo em suas redes sociais — Foto: Reprodução

O episódio envolve divergências sobre a articulação do PL no Ceará, onde o partido discutiu uma aliança com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB).

Michelle criticou a aproximação com Ciro e afirmou que Flávio a tratou de forma ríspida após o episódio.

Como os vídeos foram publicados depois das pesquisas mais recentes, ainda não há medição sobre o impacto desse conflito familiar na pré-campanha de Flávio Bolsonaro.

Caso Master pesa sobre a disputa

O caso Banco Master continua no centro do debate político a 100 dias do primeiro turno.

A Polícia Federal ainda analisa materiais apreendidos durante as investigações, incluindo celulares de Daniel Vorcaro.

Arte: The Intercept

Além disso, duas tentativas de delação do ex-banqueiro foram rejeitadas.

Vorcaro foi preso por suspeita de lavagem de dinheiro e fraudes financeiras.

As fases da Operação Compliance Zero indicam que as apurações podem alcançar agentes públicos de diferentes esferas do poder.

Nos bastidores de Brasília, a investigação é tratada como um caso de alcance suprapartidário, com potencial para envolver personagens da esquerda, da direita e de outros campos políticos.

Flávio perde força após conversas com Vorcaro

Na oposição, o caso teve reflexos diretos sobre a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.

Diálogos revelados em maio mostram o senador pedindo recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.

O dono do Banco Master chegou a transferir R$ 61 milhões.

Depois da revelação, Flávio perdeu apoio em cenários de primeiro e segundo turno.

Na Quaest, o senador passou de 33% para 29% das intenções de voto no primeiro turno.

Em eventual confronto direto com Lula, recuou de 41% para 38%.

Segundo o levantamento, 65% dos entrevistados consideram a atitude de Flávio um erro.

Além disso, 58% enxergam indícios de irregularidades no episódio.

Apesar disso, o desgaste do senador não se traduziu em crescimento expressivo de outros nomes do campo conservador ou de centro-direita.

“Paradoxo da direita” aparece nas pesquisas

Os dados divulgados após a ligação de Flávio com Vorcaro mostram um fenômeno que o diretor da Quaest, Felipe Nunes, tem chamado de “paradoxo da direita”.

Embora Flávio Bolsonaro apresente sinais de desgaste, nenhum outro nome de centro-direita conseguiu se consolidar como alternativa competitiva.

Governadores e lideranças que tentam ocupar esse espaço aparecem fragmentados nas pesquisas.

Entre eles estão Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Aécio Neves (PSDB).

Somados, esses nomes reúnem cerca de 12% das intenções de voto.

“Flávio está enfraquecido para unificar, mas os demais são fracos demais para ocupar esse espaço”, afirma Felipe Nunes.

Especialistas veem eleição sensível à agenda factual

Para especialistas, o cenário cria desafios tanto para a oposição quanto para Lula.

A disputa permanece aberta e pode sofrer mudanças até o dia da eleição.

“Os resultados confirmam que a disputa pela Presidência está aberta e tende a ser altamente sensível à agenda factual, deixando as variações sujeitas a mudanças até o dia da eleição. Esse é o caso do episódio envolvendo Jaques Wagner”, afirma Aldo Fornazieri, cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Jaques Wagner entra na mira e deixa liderança

No governo, a inclusão de Jaques Wagner nas apurações ampliou a pressão sobre o Palácio do Planalto.

O senador, ex-líder do governo no Senado, foi alvo de uma operação da Polícia Federal.

Foto: @vinicius.foto

A investigação apura a compra de um apartamento de luxo em Salvador e repasses que somam R$ 3,5 milhões em nome de familiares do parlamentar.

Desde a operação, integrantes da base governista avaliavam que o caso poderia dificultar a articulação política do Executivo no Congresso.

Além disso, aliados viam risco de desgaste para Lula no início da corrida eleitoral.

Wagner deixou o cargo de líder do governo no Senado na quarta-feira (24), após reunião com Lula.

Independentes entram no centro da disputa

A essa altura da pré-campanha, os eleitores independentes viraram alvo prioritário das campanhas presidenciais.

Esse grupo representa 32% do eleitorado brasileiro.

Ele reúne pessoas que não se identificam nem com a esquerda nem com a direita, nem como lulistas ou bolsonaristas.

Segundo Felipe Nunes, esses eleitores tendem a priorizar temas como democracia, segurança pública, combate à corrupção e desburocratização.

A pesquisa Quaest de junho mostrou mudança nesse segmento.

Lula ultrapassou Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno entre independentes e abriu 13 pontos de vantagem: 37% a 24%.

Para Nunes, o resultado indica perda de apoio de Flávio fora de sua base mais fiel, especialmente entre eleitores menos alinhados ideologicamente ao bolsonarismo.

Disputa já começou no TSE

Mesmo antes do início oficial da campanha eleitoral, marcado para 16 de agosto, a disputa presidencial já se intensificou no Tribunal Superior Eleitoral.

Dados do TSE mostram aumento de 335% nas representações por propaganda antecipada em comparação com o mesmo período da eleição de 2022.

O ministro Kassio Nunes Marques, durante sessão no TSE – Luiz Roberto – 3.mar.26/Divulgação TSE

Até agora, a Corte registrou mais de 130 ações.

As federações ligadas a Lula e a Flávio Bolsonaro aparecem como protagonistas dessa disputa jurídica.

As ações envolvem acusações mútuas sobre irregularidades em peças publicitárias, manifestações nas redes sociais e conteúdos de pré-campanha.

PT e PL são os partidos que mais protocolaram representações no TSE.

TSE já decidiu sobre conteúdos contra Lula e Flávio

Entre as decisões recentes, o ministro André Mendonça determinou a remoção de conteúdos contra Lula.

Ele também mandou retirar do ar uma deepfake envolvendo Flávio Bolsonaro.

Já Kássio Nunes Marques, presidente do TSE, rejeitou um pedido do PT para barrar o filme “Dark Horse”.

Além disso, Nunes Marques atendeu a uma ação da pré-campanha de Flávio Bolsonaro e derrubou uma pesquisa da Atlas/Intel considerada desfavorável ao senador.

Para o ministro, havia indícios de indução capaz de contaminar as respostas e comprometer a metodologia da pesquisa.

A AtlasIntel afirmou que realizou a pesquisa sem reproduzir o áudio de Flávio aos entrevistados.

O julgamento foi adiado após pedido de vista da ministra Estela Aranha e ainda não tem previsão de retorno à pauta do TSE.

Campanhas reforçam equipes jurídicas

O aumento da judicialização na pré-campanha levou as campanhas a fortalecerem suas equipes jurídicas.

Flávio Bolsonaro contratou a ex-ministra do TSE Maria Cláudia Buchianeri.

Já o grupo ligado a Lula passou a contar com o advogado Ângelo Ferraro.

A movimentação mostra que a disputa jurídica deve ter papel central na eleição.

Além da propaganda antecipada, a principal preocupação envolve o uso irregular de inteligência artificial.

Inteligência artificial vira desafio eleitoral

Pelas regras aprovadas pelo TSE, conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial precisam ser identificados de forma clara para os eleitores.

Montagem de vídeo da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL), alvo de ação do PT no Tribunal Superior Eleitoral. — Foto: Reprodução/Redes sociais

A Corte também proibiu o uso de deepfakes que simulem falas ou comportamentos de candidatos com potencial de enganar o público.

Na prática, porém, a fiscalização tem se mostrado complexa.

Ministros do TSE admitem que o monitoramento desse tipo de material será um dos maiores desafios da eleição.

A facilidade de acesso às ferramentas de IA, o baixo custo de produção e a velocidade de disseminação nas redes sociais aumentaram a preocupação com campanhas de desinformação.

Casos com IA já chegaram ao TSE

Entre os casos que chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral estão vídeos, deepfakes e personagens digitais usados na disputa política.

Um deles envolve um vídeo do PL que utiliza imagens geradas por inteligência artificial para retratar Lula e seus familiares em uma paródia da série “A Grande Família”.

Outro caso trata de uma deepfake de Flávio Bolsonaro em uma suposta reunião com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

Também chegaram ao TSE denúncias sobre personagens digitais criados para disseminar conteúdos descontextualizados sobre adversários políticos.

Há ainda um vídeo produzido com IA que mostra Flávio Bolsonaro atirando contra embarcações identificadas com as siglas CV e PCC.

O PT sustenta que esse conteúdo configura propaganda eleitoral antecipada.

Campanha começa sob risco de judicialização e desgaste duplo

O cenário a 100 dias do primeiro turno combina disputa apertada, desgaste de lideranças, fragmentação da centro-direita e avanço da judicialização.

Lula aparece em vantagem nas pesquisas, mas enfrenta o risco de desgaste gerado pela investigação envolvendo Jaques Wagner.

Flávio Bolsonaro mantém a posição de principal nome da oposição, mas sofre pressão pelo caso Master, pelo vídeo de Michelle Bolsonaro e pela dificuldade de unificar o campo de centro-direita.

Enquanto isso, o TSE se prepara para uma eleição marcada por ações judiciais, disputa digital intensa e uso crescente de inteligência artificial.

Nesse ambiente, fatos novos podem alterar rapidamente o humor do eleitorado, principalmente entre independentes, segmento visto como decisivo para o resultado final.

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