Operação “Covil do Mamon” prende 20 investigados em quatro estados e expõe esquema de agiotagem marcado por extorsão, tortura, lavagem de dinheiro e homicídios
A Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) desarticulou, nesta quarta-feira, 20 de maio, um esquema milionário de agiotagem, extorsão e lavagem de dinheiro que atuava com violência extrema no estado. A operação, batizada de “Covil do Mamon”, resultou na prisão de 20 investigados em quatro estados, incluindo dois cabos da Polícia Militar do Amazonas localizados em Santa Catarina.
Segundo as investigações, uma das organizações criminosas movimentou cerca de R$ 24 milhões entre 2024 e 2026. Além disso, a apuração aponta crimes como homicídios, tortura, sequestro e cárcere privado ligados às cobranças feitas pelo grupo.
PMs presos em Santa Catarina integravam núcleo financeiro
Entre os presos estão dois cabos da Polícia Militar do Amazonas, que estavam suspensos das funções e já respondiam a processo criminal. Mesmo assim, eles deixaram o estado sem autorização judicial.

De acordo com o major André Oliveira, diretor de comunicação social da PM, a Polícia Civil catarinense localizou os dois em Santa Catarina.
Segundo a investigação, os cabos integravam o núcleo financeiro do esquema. Na prática, eles seriam responsáveis pela lavagem do dinheiro obtido de forma ilegal.
Pequenas dívidas viravam cobranças impagáveis
As investigações revelaram um mecanismo de empréstimos com juros abusivos, capaz de transformar quantias pequenas em dívidas impagáveis em pouco tempo.
O delegado Fernando Bezerra citou um dos exemplos mais impressionantes do inquérito.
“De R$ 150, nós temos um exemplo que chegou a R$ 45 mil de cobrança. Nós temos exemplos de cobranças de mais de R$ 250 mil a partir de empréstimos de menos de R$ 500”, afirmou.
Em outro caso, segundo a polícia, a dívida ultrapassou R$ 400 mil.
Cobranças envolviam violência extrema
Quando as vítimas atrasavam o pagamento, o grupo partia para a intimidação e para a violência física.
Segundo a Polícia Civil, os investigados usavam:
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- ameaças constantes;
- agressões físicas;
- extorsão;
- tortura;
- sequestro;
- cárcere privado;
- homicídios ligados às cobranças.
Fernando Bezerra resumiu o método do grupo como uma forma brutal de pressão.
“É uma forma extremamente inescrupulosa de cobranças através de lesão corporal, ameaças acintosas. Temos catalogados homicídios derivados desses atos de cobrança”, disse.
Mulher baleada e vítima mantida em cárcere
Entre os casos apurados, a polícia citou o de uma mulher que levou três tiros durante uma ação atribuída a uma das organizações criminosas.
“Nós temos o caso de uma senhora que foi fuzilada — ela não chegou a morrer porque ela recebeu três tiros, mas teve atendimento médico —, porém, foi fuzilada por uma dessas organizações criminosas”, relatou o delegado.
Além disso, outra vítima passou dez dias em cárcere privado.
Segundo Fernando Bezerra, há nos autos indícios de alta probabilidade de que ela tenha perdido o bebê que estava gestando. Inclusive, esse caso foi o ponto de partida para a investigação.
Grupo também tomava carro e apartamento de vítimas
A polícia informou ainda que algumas vítimas tiveram apartamentos e carros tomados pelos agiotas como parte das cobranças.

Ou seja, o esquema não se limitava a pressionar devedores. Ele também avançava sobre o patrimônio das vítimas, ampliando o terror imposto pelo grupo.
Operação cumpre prisões e bloqueia patrimônio
A Justiça decretou 25 prisões preventivas. Até agora, a operação cumpriu 20 mandados de forma simultânea no Amazonas, Santa Catarina, Roraima e Paraíba.
Um dos líderes não foi preso porque está internado em estado grave em um hospital de Manaus. Por outro lado, a esposa dele acabou presa. Além disso, outros quatro alvos seguem foragidos.
A investigação abrange crimes cometidos desde 2021 e já identificou pelo menos 40 vítimas.
Polícia mapeou toda a estrutura criminosa
Segundo a Polícia Civil, a apuração conseguiu identificar toda a cadeia de funcionamento das organizações.
De acordo com Fernando Bezerra, a polícia localizou os responsáveis por cada etapa da engrenagem criminosa.
“A investigação foi exitosa porque conseguiu identificar toda a cadeia criminosa e todos os responsáveis por cada etapa”, afirmou.
A operação alcançou:
- núcleo diretivo;
- núcleo operacional;
- núcleo financeiro;
- núcleo logístico;
- cobradores;
- responsáveis pelo fornecimento de armas e veículos.
Armas, espadas e materiais foram apreendidos
Durante a ofensiva, os agentes apreenderam:

- armas de fogo;
- espadas;
- computadores;
- celulares;
- mídias digitais;
- documentos.
As espadas chamaram atenção da polícia e da imprensa. Segundo o texto-base, elas traziam detalhes considerados macabros, como símbolos demoníacos e cabeças de cabra ornamentadas nos cabos.
De acordo com Fernando Bezerra, esse material ainda passará por análise.
“Nós temos consciência de que a investigação não para por aí e vem a segunda fase”, declarou.
PM diz que não compactua com corrupção policial
O major Andrey Oliveira, diretor de comunicação da PMAM, afirmou que os policiais militares presos já estavam afastados das funções e respondiam a processos anteriores.
Segundo ele, a corporação não tolera o envolvimento de agentes com práticas criminosas.
“Reafirmamos que a Polícia Militar do Amazonas não compactua com esses casos de corrupção policial”, declarou.
Além disso, a PM informou que aguarda o avanço das investigações para adotar novas medidas administrativas, incluindo a possível exclusão dos envolvidos.
Operação continua e pode ter nova fase
A operação “Covil do Mamon” segue em andamento. Portanto, a Polícia Civil não descarta novas prisões, novos alvos e o aprofundamento das apurações financeiras.
Na prática, o caso expõe um esquema que unia agiotagem milionária, violência sistemática e uma estrutura criminosa espalhada por vários estados.
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