Coluna do Jota Garcia

Trump exigiu restrições à China e tarifa zero para produtos dos EUA em negociação com o Brasil

Foto publicada por Flávio Bolsonaro após encontro com Donald Trump | Imagem: Reprodução
Em troca, Casa Branca ofereceu discutir uma redução ainda não definida das tarifas aplicadas aos produtos brasileiros

O governo de Donald Trump condicionou uma eventual redução das tarifas contra o Brasil à abertura do mercado nacional para produtos norte-americanos. Além disso, exigiu restrições a investimentos chineses em setores estratégicos, como mineração, refino e minerais críticos.

A equipe de Trump apresentou a proposta ao governo brasileiro no início de 2026. Naquele momento, os Estados Unidos ainda conduziam investigações comerciais contra o país.

O documento estabeleceu exigências para os setores agrícola, industrial, digital, mineral e aeroespacial. Contudo, não determinou qual redução tarifária Washington ofereceria ao Brasil em troca das concessões.

Na minuta, o campo destinado à nova tarifa aparece apenas como “[XX] por cento”. Portanto, os Estados Unidos cobraram compromissos concretos do Brasil sem apresentar uma contrapartida igualmente definida.

Governo Trump rejeitou proposta brasileira

O representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que recebeu uma proposta brasileira no início de novembro de 2025. O Brasil apresentou o documento no formato de um rascunho de Declaração Conjunta.

Imagem: Reprodução/Flávio Bolsonaro

No entanto, o governo norte-americano rejeitou os termos. Em carta datada de 9 de janeiro de 2026, Greer disse que as negociações não avançaram conforme a expectativa de Washington.

“Estou desapontado que não tenhamos chegado mais perto, a despeito das nossas várias interações”, afirmou.

Segundo Greer, autoridades dos dois países mantiveram conversas em março, outubro e novembro. Ainda assim, os Estados Unidos consideraram insuficientes as concessões apresentadas pelo Brasil.

O representante comercial citou as tarifas brasileiras sobre etanol e outros produtos. Além disso, apontou barreiras não tarifárias, regras digitais e medidas que, segundo ele, limitavam a relação econômica.

“Nossa política não irá mudar sem melhoria significativa de acesso ao mercado e de proteção para os negócios dos EUA”, alertou.

Estados Unidos cobraram ampla abertura comercial

Na carta de três páginas, Washington sugeriu um acordo provisório para reiniciar as negociações. Em troca de uma possível redução tarifária, o Brasil deveria eliminar impostos e barreiras que atingem empresas norte-americanas.

Imagem: Reprodução

Na agricultura, os Estados Unidos exigiram tarifa zero para o etanol produzido no país. Também cobraram garantias de acesso ao mercado brasileiro para carnes e queijos.

Além disso, Washington propôs um grupo de trabalho para discutir a estabilidade do comércio mundial de produtos agrícolas. A iniciativa funcionaria no âmbito do Acordo sobre Comércio e Cooperação Econômica (ATEC).

No setor industrial, o governo Trump pediu a eliminação das tarifas sobre produtos químicos, veículos e autopeças. A lista também incluiu dispositivos médicos, medicamentos e frutos do mar.

Veículos e medicamentos seguiriam regras dos EUA

O documento exigiu que o Brasil aceitasse veículos fabricados conforme as normas federais de segurança dos Estados Unidos. Dessa forma, as montadoras norte-americanas poderiam acessar o mercado brasileiro sem cumprir exigências adicionais.

Da mesma forma, Washington pediu o reconhecimento das autorizações da Food and Drug Administration (FDA). A medida alcançaria dispositivos médicos e medicamentos fabricados nos Estados Unidos.

Foto: Divulgação/BYD

Assim, o Brasil deveria aceitar certificados norte-americanos sem impor novas etapas regulatórias. Na prática, a medida reduziria a autonomia das agências brasileiras na avaliação desses produtos.

No setor aeroespacial, o governo Trump também cobrou a retirada de todas as tarifas e barreiras sobre jatos comerciais dos Estados Unidos.

Proposta atingiu regras para empresas digitais

No comércio digital, os Estados Unidos exigiram que o Brasil apoiasse uma moratória permanente na Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa medida impediria a cobrança de tarifas alfandegárias sobre transmissões eletrônicas.

Além disso, a proposta cobrou tratamento considerado “justo” para empresas norte-americanas nas decisões sobre concorrência e regulação digital.

O documento também exigiu consultas prévias aos setores interessados durante a elaboração de novas medidas. Nesse contexto, empresas norte-americanas ganhariam participação direta nas discussões regulatórias brasileiras.

Washington ainda pediu garantias para as plataformas digitais dos Estados Unidos nas normas sobre conteúdo em redes sociais. Entretanto, o texto não detalhou os critérios para definir o que seria um tratamento justo.

Minerais críticos e investimentos chineses

Na área mineral, o governo Trump exigiu medidas contra investimentos de “atores não orientados pelo mercado” e “entidades estrangeiras de preocupação”. Autoridades norte-americanas costumam usar essas expressões em referência à China.

Foto: Reprodução

A proposta alcançaria os setores de mineração, refino e outras atividades industriais consideradas estratégicas. Portanto, o Brasil precisaria limitar a participação chinesa nessas áreas para avançar nas negociações comerciais com Washington.

Além disso, os Estados Unidos cobraram uma revisão da venda da operação de níquel da Anglo American. O governo Trump também pediu condições para que empresas norte-americanas investissem no setor brasileiro de minerais críticos.

O documento ainda citou riscos envolvendo tecnologias de comunicação, serviços públicos e infraestrutura. Da mesma forma, incluiu equipamentos usados em inspeções de segurança.

Contrapartida ficou indefinida

Apesar da extensão das exigências, o governo norte-americano não fixou a redução tarifária que ofereceria ao Brasil. O texto apenas mencionou a possibilidade de diminuir as taxas sobre determinados produtos brasileiros.

Greer afirmou que Trump já havia reduzido unilateralmente algumas tarifas por meio de uma ordem executiva de novembro de 2025. Em seguida, convidou o Brasil a atender às preocupações norte-americanas como demonstração de boa vontade.

“Convido o Brasil a dar os passos necessários para endereçar as preocupações dos EUA”, escreveu.

A proposta contrasta com a versão de que o governo brasileiro teria recusado uma negociação em condições equilibradas. Além disso, mostra que Washington vinculou qualquer alívio tarifário a concessões amplas em áreas estratégicas da economia nacional.

Foto: Reprodução

Para críticos do documento, os Estados Unidos apresentaram uma escolha baseada em pressão: alinhamento econômico e geopolítico ou manutenção das punições comerciais. Já os defensores de um acordo sustentam que o Brasil deveria negociar para preservar o acesso ao mercado norte-americano.

Por fim, os Estados Unidos também pediram que o Brasil propusesse uma lei contra a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado ou compulsório.

Exigências apresentadas pelos Estados Unidos
  • Eliminar a tarifa brasileira sobre o etanol norte-americano;
  • Retirar tarifas sobre produtos industriais dos Estados Unidos;
  • Facilitar a entrada de veículos fabricados segundo as normas norte-americanas;
  • Reconhecer autorizações da FDA para medicamentos e dispositivos médicos;
  • Remover barreiras sobre jatos comerciais dos Estados Unidos;
  • Consultar empresas norte-americanas sobre novas regras digitais;
  • Garantir condições favoráveis às plataformas digitais dos Estados Unidos;
  • Apoiar uma moratória sobre tarifas de transmissões eletrônicas;
  • Limitar investimentos chineses em mineração e setores estratégicos;
  • Revisar a venda da operação brasileira de níquel da Anglo American;
  • Facilitar investimentos norte-americanos em minerais críticos;
  • Adotar medidas contra produtos fabricados com trabalho forçado.

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